O regime de Mubarak finalmente cai

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011.

      O mundo árabe, ao longo das últimas décadas, teve três formas de governo – aS monarquiaS absolutistaS, as ditaduras republicanas e as democracias sectárias. Com o Egito, surge a oportunidade para uma quarta, que poderia ser uma democracia nos moldes ocidentais, uma democracia secular como a Turquia pós-ditadura ou um Estado islâmico sunita.
      Primeiro, temos que eliminar as outras possibilidades. O Egito já foi uma monarquia absolutista. Mas Nasser a derrubou, instalando o regime que caiu hoje, apesar de diferenças ideológicas. A ditadura republicana virou passado nas ruas e dificilmente as Forças Armadas tenham o objetivo de instalar uma outra no lugar. As democracias sectárias podem existir apenas em países como o Líbano e o Iraque, onde diferentes religiões convivem no mesmo espaço.
      Cerca de 90% da população egípcia é muçulmana sunita, e apenas 10% cristã copta. Um cenário completamente distinto de Beirute, onde cristãos, sunitas, xiitas e drusos não são maiorias individuais.
Sobram as três outras opções, inexistentes no mundo árabe. A dificuldade de uma democracia nos moldes ocidentais seria o de um regime hostil aos EUA ou Israel assumir o poder. Para impedir este cenário, os americanos e as Forças Armadas do Egito trabalham com a opção turca, que seria a outra alternativa.
      A Turquia também passou por uma ditadura e temia o radicalismo islâmico. A saída do Exército foi passar o poder para os civis, desde que mantivessem o secularismo. Também permaneceram com o controle da segurança e política externa. Isso começou a diminuir nos últimos anos. Os muçulmanos moderados do AKP, liderados por Abdullah Gul e Erdogan, abrandaram o “secularismo” de Mustafá Kemal Ataturk.
      O Estado Islâmico, maior temor de Israel e também da maioria da população egípcia (61%, segundo a Pew), jamais seria nos moldes iranianos. O Egito é árabe e sunita. O Irã é persa e xiita. E não existe uma figura carismática como o aiatolá Khomeini.  A Irmandade Muçulmana tampouco pode ser comparada ao radicalismo da revolução islâmica do Irã. Trata-se de uma organização dividida em diversas correntes, como o Vaticano. Há esquerdistas e direitistas. Radicais e moderados. Alguns defendem a entrada na política, outros não.
Portanto, dos regimes possíveis, dois são os mais prováveis – democracia nos moldes ocidentais ou democracia secular. Não haverá Estado islâmico, ditadura republicana, democracia sectária ou monarquia absolutista.
AS PERGUNTAS DA ERA PÓS MUBARAK
      Hosni Mubarak não é mais presidente do Egito. Ele estava no poder desde que Figueiredo governava o Brasil e Reagan os Estados Unidos. Depois de cerca de três semanas de protestos, a população egípcia conseguiu o impensável. O mais estável ditador do mundo árabe, aliado dos americanos, no poder há trinta anos, caiu. Com a queda, o Egito e o Oriente Médio entram em uma nova etapa.
       O Estado Maior das Forças Armadas assumiu o poder, segundo afirmou Omar Suleiman em seu discurso. Não está claro se ele próprio, que vinha liderando o diálogo com a oposição, está incluído. Esta junta militar deverá agora estabelecer os passos a serem seguidos.
-       Quando serão as eleições presidenciais?
-       O Parlamento será dissolvido?
-       Como será o papel do Exército se o Egito se redemocratizar?
-       A Irmandade Muçulmana poderá integrar o processo eleitoral ou apenas partidos seculares?
-       Como fica o acordo de paz com Israel?
No resto do mundo árabe, também precisamos ver o que ocorrerá nos países vizinhos.
-       Sírios, argelinos, jordanianos, marroquinos, iemenitas e outros cidadãos de países árabes tentarão seguir o mesmo caminho de egípcios e tunisianos?
-       Os governos prosseguirão com as reformas, como já começaram Bashar al Assad, em Damasco, rei Abdullah, em Amã, e Ali Abdullah Saleh, em Sanaã?
-       Ou intensificarão a repressão contra opositores, como o Irã (que não é árabe) em 2009?
-      Os protestos continuarão?
Para completar, temos as questões para Obama e o governo dos EUA
-       Irão apoiar a democratização imediata?
-       Como ficará a relação com outros regimes ditatoriais na região?
-       Como lidar com os temores israelenses de que um futuro regime hostil a Israel assuma o poder no Cairo?

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