Recebi Por E-mail: Geração de empregos: um Belo Monte de mentiras

quarta-feira, 6 de abril de 2011.



Em matéria impressa na edição de domingo, dia 27/03/2011, o jornal O Liberal, um dos três de maior circulação no estado do Pará, prestou um desserviço ao jornalismo. Ou melhor: ao povo paraense. O Liberal mentiu. Na realidade, reproduziu uma mentira, seguidamente contada pelo Governo Federal e por aqueles que defendem a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte: a de que o projeto de barramento do Rio Xingu vai gerar milhares de empregos e contribuir para o desenvolvimento da região de Altamira e municípios vizinhos.
A conta é simples de se fazer, segundo os próprios dados do Governo. O Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental – EIA/RIMA estimam que 96 mil pessoas sejam atraídas para Altamira e região, ao longo do período das obras. Entretanto, o mesmo estudo afirma que “no pico das obras, deverão ser gerados mais de 18 mil empregos diretos e cerca de 23 mil indiretos”, totalizando a abertura de 41 mil postos de trabalho.
Qualquer criança que tenha aprendido as operações básicas da matemática pode fazer essa subtração: 96 menos 41 é igual a 55. Ou seja, a hidrelétrica de Belo Monte vai gerar 55 mil desempregos. Isso nas contas do próprio Governo e das três empreiteiras que fizeram o EIA/RIMA (Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht), e se levarmos em consideração os números conservadores dos defensores da UHE Belo Monte, porque alguns críticos falam em mais de 150 mil pessoas se deslocando para o Xingu, em busca de um novo eldorado.
Com medidas “para diminuir e compensar as alterações negativas” causadas pela construção do Belo Monstro, o EIA/RIMA propõe um conjunto de planos, programas e projetos. Sem entrar no mérito se tais propostas trarão soluções reais aos problemas causados, vamos nos deter em dois dos objetivos do Programa de Orientação e Monitoramento da População Migrante, que são “orientar a população migrante sobre as reais possibilidades de emprego” e “apresentar as características do empreendimento à população migrante para que esta possa avaliar as possibilidades existentes e decidirem se vão permanecer ou não na região”.
As obras já começaram, ignorando as leis e os pareceres técnicos assinados pelos servidores públicos. E são os agentes que o próprio Estado nomeia e paga, e que colocam em funcionamento a máquina estatal. É o Estado passando por cima do próprio Estado, para beneficiar terceiros. Mas, onde está o Programa de Orientação? Onde está o acompanhamento da “evolução do número de pessoas atraídas para a região”? Como os municípios poderão se planejar sem essas informações? Esse Programa está previsto no EIA/RIMA, mas não saiu do papel.
Dizia o modelo neoliberal, sepultado após a crise internacional de 2009/10, que a “sociedade” deveria cumprir os deveres do Estado naquilo que lhe fosse de interesse. Se aplicarmos essa lógica, a imprensa privada poderia tomar do Estado o sagrado dever de informar a população. Esta louvável atitude, de prestar informação, poderia ter sido a origem da reportagem publicada em O Liberal. Ora, se o Estado não exige da Norte Energia SA – NESA o cumprimento do Programa de Orientação do EIA/RIMA, a dita “sociedade” deve requerer e exercer essa ação. E assim foi feito.
Apenas um detalhe: O Liberal faltou com a verdade. Assim, ao invés de ajudar a “orientar e população migrante sobre as reais possibilidades de emprego”, o jornal criou uma falsa expectativa, baseada em especulações, com o claro intuito de mascarar a realidade e tornar o empreendimento de Belo Monte mais palatável.
Na capa do jornal de domingo, em uma posição de destaque, no canto superior esquerdo, ao lado da bela fotografia de um cartão-postal de Belém, o mercado do Ver-o-Peso, flertando com o pôr-do-sol sobre as águas da Baía do Guajará, lê-se a chamada: “Empregos. Belo Monte vai pagar salários de até R$ 4 mil”. Uau! Que efeito mais atraente: uma bela imagem, um belo emprego, um belo salário e... um belo monte de mentiras.
Um crítico poderia exclamar: “Não é mentira! O salário do engenheiro é de R$ 4.049,00!”. De fato. Pelo menos uma, das 64 modalidades de emprego, confere com o título da reportagem. Mas, no imaginário do leitor desatento, ficará a idéia de que a maioria, ou boa parte, das ofertas de trabalho pagará salário semelhante. Ora, por que falar do salário de R$ 625 do contínuo? Ou dos R$ 711 do office-boy? Ou dos R$ 975 do carpinteiro? Por que colocar em evidência os salários mais baixos, responsáveis pela imensa maioria dos postos de trabalho a serem abertos? Não! Isso não é atraente. Mas o Programa de Orientação diz para esclarecer sobre as características do empreendimento...
Bem, depois de criar uma enorme ilusão sobre salários de R$ 4 mil, surge uma nova chamada, na parte superior da página oito: “Emprego não será problema em Belo Monte.” Contrariando as conclusões do EIA/RIMA, que afirma a ocorrência de uma demanda por empregos duas vezes maior que a oferta, O Liberal induz o seu leitor a acreditar que haverá uma enxurrada de empregos sendo distribuídos em Altamira. E com salários de R$ 4 mil.
Finalmente, na página 13 (sem duplo sentido), para êxtase dos sem-emprego, em letras garrafais, o título: “Belo Monte abre temporada de emprego”. A impressão que se tem é que a NESA já está contratando os trabalhadores para a construção da usina. O jornal monta uma sequência de mentiras que culminam com uma convocatória implícita e irresponsável para que as pessoas se desloquem para o Xingu à procura de emprego. Em termos matemáticos, a equação ficaria mais ou menos assim: salário de R$ 4 mil + fartura de empregos + contratação imediata = corram para Altamira.
Antes de comprar sua passagem, a prudência aconselha a ler a reportagem completa. Em suas linhas e, principalmente, suas entrelinhas. É nesse momento que a mentira começa a ser desconstruída. Um colorido quadro mostra como serão os salários pagos em Belo Monte. É quando se percebe que em 26% daquelas 64 profissões citadas na primeira página do jornal, o salário não é informado; que em 30% o salário atinge, no máximo, R$ 1.000 e em outros 33%, limita-se entre R$ 1.000 a R$ 2.000. Apenas duas profissões (3% do total) terão salários acima de R$ 3.000.
E pior: descobre-se que aquela lista de empregos não foi criada pela Norte Energia. É apenas uma simulação do que poderá ocorrer no canteiro de obras. É uma informação coletada junto a um sindicato de trabalhadores e a um desconhecido Banco Nacional de Salários, sobre as médias salariais de determinadas profissões. Ou seja: é pura especulação de O Liberal, mostrando seu descompromisso em “orientar a população migrante”.
As manchetes são tão tendenciosas, que sequer levam em consideração a parte final da própria reportagem, onde o presidente do Conselho Regional de Economia teria dito que “não será possível garantir trabalho a todos, pelo número limitado de vagas e pela falta de preparo para ocupar os postos de trabalho abertos”. E conclui informando que Altamira já conta com 20 mil desempregados, sobre uma população de 100 mil habitantes.
Essa postura faz parte da estratégia adotada pelo Governo Federal, de transformar a construção da UHE Belo Monte em fato consumado, e dessa forma garantir que suas decisões, ao arrepio da lei, não sejam questionadas ou modificadas. E ainda manipula aqueles que estão desempregados, iludindo-os com promessas vazias de bons salários, criando um clima de confronto com os movimentos sociais que lutam contra a construção da barragem.
Os redatores do jornal agem como recrutas em uma guerra sem quartel, onde o inimigo a ser combatido é o cidadão comum, que precisa ser bombardeado com desinformação, para aceitar as imposições de um grupo de burocratas e empresários que tomaram de assalto o Planalto Central e buscam legislar, governar e julgar em causa própria.
Programa de Orientação? Monitoramento da população? Informação? Ora... belo monte de baboseiras.

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