Trabalho acadêmico

quinta-feira, 7 de abril de 2011.

Tiago Sousa



Do simbólico, da morte, do ensino e da aprendizagem humana.



Fernando Savater quando fala dos dois nascimentos do homem para poder se tornar humano está discriminando um processo que começa com o nascimento e finaliza com o processo natural de amadurecimento, a mediação calca-se na idéia de que a relação do homem com o mundo não é direta, mas mediada pelo simbólico, ou seja: essa relação indireta é mediada pelo uso de instrumentos e signos. O uso dessas mediações, segundo Vygotsky, explicita a psicologia humana fundamental, que é a internalização das atividades, sejam instrumentais ou simbólicas: o instrumento sendo direcionado para a resolução de algo exterior ao indivíduo e o símbolo direcionado para a resolução de algo interior. Isso revelaria a “plasticidade” do cérebro humano, pois abriria campo para novas funções, que poderiam surgir também com a vida do indivíduo, no desenrolar de sua trajetória sócia histórica. O uso de tais artifícios carrega consigo um processo de internalização. E, em muitos casos, o outro passa a constituir papel fundamental para o desenvolvimento desse processo.

Este acontecimento só se dará na segunda gestação, neotenia, e nos é dado um papel de interlocutor entre os usos da linguagem simbólica em uso, para a tradução dos significados correntes no processo de aprender e ensinar. Pensando nisto Rubem Alves disse certa vez: “Os gregos diziam que a cabeça começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto”. Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que vemos. E as perguntas se sucedem: ‘Para que serve? ’; ‘Como é que se faz isso? ’; ‘Por que é que isso acontece quando faço isso? ’; ‘O que é isso? ’ É com esta analise de Rubem que eu vejo o quanto nós precisamos da visão, e aqui digo não a visão ótica, mas a visão da curiosidade que inerentemente estará em uso no segundo nascimento e que não pode ser “cegada” pela barreira da compreensão destes significados.

Do ponto de vista do conhecimento e sua obtenção pelo homem o que me chamou a atenção foi a analise acerca da morte feita por Arthur Schopenhauer, sobre o medo da morte e como este medo é um processo irracional, palavras do próprio filosofo: “O receio da morte está no homem e em todos os outros animais. E este receio traz uma virtude a esses seres, fazendo com que eles sintam compaixão por outro ser que morreu”. Quem não mostra aflição quando isso ocorre, segundo Schopenhauer, é destituído de amor e tem um coração rancoroso. Complementaria o dito de Schopenhauer, pois se o medo da morte pode ser um processo irracional, por outro lado o ser humano também aprende com ela e graças ao exemplo alheio da morte ele evolui em algum aspecto, é a experiência boa ou dolorosa do mundo que está ao nosso redor que nos faz adquirir conhecimento. Este processo que transforma a dor própria ou de outrem é que faz com que consigamos extrair conhecimento até da morte, que pode fechar o homem para a reflexão momentânea, mas não para uma futura reflexão, pois bem diz o dito popular: “Para que o medo se o futuro é a morte!”.
 
É provável que aprendamos não com a morte em si, mas com a falta de vida. Com a ausência dela que nossa perspectiva de mundo se abre, nós paramos para refletir e auto questionar, será que estou na realidade? O mundo será um sonho? Por que isso? Por que aquilo? Enfim o real e o imaginário parecem se juntarem. Foi assim que o pensador taoista tchuang-tse reagiu à morte de sua mulher: - “No momento de sua morte fiquei, naturalmente, abalado por um instante; porém refleti sobre o inicio, descobri que, na origem, ela não tinha vida; não tinha vida e nem mesmo forma; não tinha forma e nem mesmo sopro, alguma coisa de fugidio e incompreensível transformou-se em sopro, o sopro, em forma, a forma, em vida, e agora eis que a vida transformou-se em morte”... Este tipo de questionamento só a vida ou, no caso, a morte pode responder.

O olhar o outro e o olhar a si mesmo em constante troca entre si e o outro me levou a analise de Humberto Maturana, que nos torna sistemas autopoiéticos ou auto reguladores não disjuntos do “meio ambiente”. Ele vem demonstrando teoricamente que o organismo é o meio e o meio é o organismo. Ora, então somos aquilo que vivemos e como vivemos. Dizer, por exemplo, que somos o que comemos o que lemos como enxergamos o mundo e como nos colocamos nele, é admitir a ideia de um sistema nervoso que não apenas se constitui na interação do organismo com o meio e vice-versa, mas em sua inter constituição contínua ou auto geração bi polarizada entre partes de um mesmo organismo sistema. Esta analise me levou a um dos maus usos da TV no processo de deseducação das pessoas, é justamente porque se precisamos compreender significados e processar através de outrem ou de sua visão particular a informação repassada pelo mesmo, a TV atua como um ente de desconstrução deste processo uma vez que entrega as coisas tão “mastigadas” que acostumam à sonolência no deciframento do significado obtido e é necessário ver que significado não pode ser inventado, adquirido ou sustentado isoladamente, mas tem a dependência da mente dos outros, já que a informação é relida por quem não a construiu. Essa situação não só inquiri, apenas, o desfazer aprender, mas também o ensinar “errado” e as religiões são uma das que mais são atingidas por está postura. O professor de Ensino Religioso é a peça central nesta questão, e acima de tudo deve ser ético e imparcial, para viabilizar o transito entre o real e o ficcional televisivo. Papel nada fácil e de difícil engajamento.
 
O papel do professor é importante na segunda fase, mas há quem fuja das suas responsabilidades, professores que brincam de profissionais, o ato de identificação, do descobrir a sua vocação, reuni dois processos um interno e outro externo, no interno a pessoa aprende e num dialogo consigo mesmo acha o caminho particular na busca da sua realização e no externo a partir de seu meio de convívio, da sua interação com os outros e através de fatores interpessoais tende a fazer a sua escolha, o problema é que as pessoas geralmente levam em consideração apenas o processo externo, talvez aí se encontre a solução de porque tanta reprovação nas provas da OAB, dos erros médicos, dos pseudos professores, etc.

            O texto de Fernando Savater me fez refletir ainda sobre algumas coisas do cotidiano que não percebemos, mas é um sério entrave ao processo educacional, uma delas é a perpetuação de frases que foram inventadas durante o próprio processo de ditadura militar e permanecem até hoje, elas foram criadas e recriadas com um único objetivo fazer o povo permanecer na ignorância e fechar os olhos ao saber, foi dessa forma que frases como: “Papagaio velho não aprende a falar”, "Macaco velho não aprende arte nova", "Cachorro velho não aprende novos truques", etc., se perpetuam e contribuem para que muitos se fechem talvez por isso a dificuldade de comunicação com um ou outro aluno em sala de aula. Aprender a linguagem simbólica do aluno é assim à melhor saída para ultrapassar esses problemas e estas barreiras vão para a sala de aula ainda mais forte quando o professor se recusa a se colocar sob a ótica do aluno.

Santa Izabel do Pará, 30 de março de 2011
Daivid Tiago O Sousa

Comentários:

 
Blog do Tiago Sousa © Copyright 2010 | Design By Gothic Darkness |