Como os ateus diferem o certo do errado?

domingo, 4 de setembro de 2011.

No ultimo dia 22 foi publicado um texto no site de Edir Macedo, lider da Igreja Universal do Reino de Deus, com o instigante titulo “Sentimento de Justiça“. Assinado pelo assim denominado Bispo Renato Cardoso, o texto detecta supostos problemas com aqueles que se dizem ateus: resumindo, se trata do famoso questionamento sobre a origem da moralidade e da etica daqueles que não creem em deus. São feitas perguntas – como “Se Deus não existe, de onde vem nosso sentimento natural, tão forte, de certo e errado?” – as quais, segundo Renato Cardoso, quem é ateu” não consegue responder”. Já conhecemos esse preconceito faz tempo, não é mesmo? O mais interessante ( ou triste, ou ironico, vocês decidem) é que o texto começa com a simples frase: “eu não desrespeito o ateu”. Fica a duvida sobre os criterios usados pelo bispo Renato para definir “desrespeito”.
Partindo para a argumentação, o bispo cita um ateu (não-identificado) que teria usado um artigo (não citado) de uma revista (também sem referência) para justificar sua falta de fé em Deus. O tal artigo colocava em cheque “a validade da Biblia como um texto inspirado por Deus” e como “guia de vida para todos”. Confrontado com essa afirmação, mais do que obvia e clara, o bispo rebate: “Nenhum cristão consciente crê que a Biblia foi escrita por Deus, mas sim por homens mesmo“. Infelizmente “cristãos conscientes” são raridade – para não dizer paradoxos – ja que uma grande parte deles é contra o casamento gay, a descriminalização do aborto. Sem contar o problema do ensino religioso. Além de acreditarem em milagres e demonios.
De certa forma, porém, temos alguns motivos para crer que muitos desses “cristãos conscientes” frequentam justamente a Igreja Universal. Sinceramente, por mais que isso possa chocar a primeira vista. Que tal lembrarmos o fato de Edir Macedo não se empenhar tanto numa cruzada contra os direitos civis dos homossexuais? Muito diferente de apoiar essa causa, claro, mas já pode ser considerado um começo. O que dizer, então, das campanhas pela legalização da interrupção da gravidez promovidas pelo líder da IURD? Mais um ponto para Edir, com certeza.
Temos que pensar na Igreja Universal sempre tendo em mente as outras congregações evangelicas de maior visibilidade atualmente. Em outras palavras: em terras do grande homofóbico Silas Malafaia e do dono de circo das curas Valdemiro Santiago, Edir Macedo esta na laterna da lista de nossos pastores questionaveis. Dos males, o menor.
O festival de nonsense chega ao fim com quatro “topicos reflexivos” relacionados à moral. Destaco apenas um deles: “Um ser puramente animal não se preocuparia com questões de certo ou errado. Porem, esse sentimento de decência humana é comum a todos os povos, desde os primórdios da humanidade. De onde vem esse sentimento de decência e de justiça que não necessita ser ensinado?”.

Acho que esse trecho pode servir, ao menos, para mostrar a importancia do tão criticado relativismo cultural. A ideia de decência, por exemplo, o que significa? Ha poucas decadas, a mulher que usasse calças cumpridas ou trabalhasse fora era considerada indecente. E justiça, então? Na Grécia da Antiguidade era justo transformar em escravo um cidadão que não pagasse suas dividas. E o que isso tem a ver o texto do Bispo Renato? Oras, se por um lado hoje em dia podemos achar descente e justo que a Igreja Universal distrubua camisinhas durante seus cultos realizados em continente Africano, por outro, a tão alardeada teologia da prosperidade é no minimo bem repugnante.

É justo oferecer um futuro da maior riqueza material àqueles que se encontram em situação, as vezes, das mais vulneraveis? É justo encarar doenças fisicas como “maldições hereditárias” que requerem uma “cura espiritual”? É decente espalhar a ideia de que as crenças afro-brasileiras são manifestações demoniacas? Não acho que a umbanda ou o candomble sejam especiais, mas considero justo que todas as religiões sejam tratadas da mesma forma. Perfeito seria se todas elas usufruissem da mesma indiferença e descrédito, mas , prossigamos. O “relativismo cultural” (que expressão feia, não é mesmo?) serve “apenas” para nos mostrar que é necessario ter duvidas: Quem está fazendo determinada afirmação? Em que época? Em que lugar? Por que?

Outro problema: como assim conceitos de justiça e decencia não necessitam de ensino? Cada cultura tem seus proprios ideais assim como o meio para passa-los às proximas gerações. O que talvez não precise ser ensinado é o sentimento humano de empatia com relação ao proximo. Mas mesmo ele pode ser “talhado” conforme a epoca e lugar. Voltando ao exemplo da escravidão, por mais que os escravos trazidos para o Brasil fossem de fato seres humanos, foram tratados das formas mais indignas por serem negros. Então, se justiça e decencia tambem precisam ser ensinados, como a igreja (e a IURD especificamente) tem feito isso?

O ultimo paragrafo do texto diz que todos os seres humanos vivem um dilema. Apesar dessa mal-formulada e não especifica lei interna, nós a contrariamos. “Nós quebramos nossos próprios principios”. É um ponto, talvez o unico, interessante. Pois esse é um problema de toda a humanidade. O bispo, porem, diz simplesmente que “A Biblia oferece respostas convincentes a esse dilema”. Será mesmo?
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