Mercado e autoritarismo

domingo, 11 de setembro de 2011.

Referindo-se a reação dos fanáticos do mercado diante da decisão do COPOM em reduzir a taxa de juros em 0,5%, que ele define como um caso de hidrofobia, Antonio Delfim Netto explica, na Folha de hoje, o que está por trás dessa atitude: “O poder eleito por 60 milhões de votos deve entregar a condição da política
monetária a meia dúzia de sacerdotes não eleitos, com mandatos irrevogáveis, que supostamente conhecem e professam a religião da salvação monetária!”.
Pois é, meus caros. Nunca pensei que Delfim Netto, o ministro do milagre econômico do regime militar, que votou a favor da instauração do AI-5, fosse acabar na posição de dar lição de democracia a tantos economistas.
         Muitos sequer têm idade para ter sofrido a violência do regime militar — mas tornaram-se adeptos de um regime que poderíamos chamar de autoritarismo dos mercados, encarados como força política acima do cidadão comum, com direito a regular a economia de 200 milhões de brasileiros conforme suas convicções técnicas, seus princípios políticos e (com todo respeito!) interesses.
Só há uma dificuldade elementar nessa postura. Em dezembro de 2010, por uma larga maioria de votos, a presidente Dilma Rousseff foi eleita para dar a um governo que tinha como prioridade alimentar o crescimento econômico e a geração de empregos. O apoio popular a essa visão de política econômica era tão grande que, embora tenha feito várias críticas ao governo anterior, o candidato adversário José Serra, da oposição, sempre se colocou de acordo com suas linhas gerais.
Disse até que concordava em 90% da política econômica do governo Lula.
A decisão de derrubar os juros, na semana passada, ocorreu numa situação específica.
A economia dos países desenvolvidos está desabando num ritmo que surpreende os mais pessimistas. A própria economia Brasileira também dá sinas de esfriamento, depois de vários meses em que a taxa de juros foi jogada para cima. No ultimo trimestre, nosso crescimento ficou em 0,8%. No próximo, poderá ficar em 0,6%. Se 2011 começou com uma projeção de 5% de crescimento, é provável que termine entre 3% e 3,5%.
Nesse ambiente, o COPOM discutiu os juros e fez uma aposta. Se olhasse apenas para trás, enxergaria a inflação, que se aproxima de sete. Olhando para frente enxergou o risco de nova queda na atividade, capaz de colocar uma perspectiva de crescimento a partir de 2012. Alguns dados são dramáticos. Vendas na construção civil, tradicional alavanca do crescimento, sofreram uma queda de 28% em relação a 2010.
O COPOM optou por uma medida que favorece o crescimento e é possível que a inflação pague um preço por isso. Julgue você mesmo. Se, pela política de metas, o teto da inflação é de 5,5%, a maioria das projeções diz que após a decisão da semana passada poderá ficar em 6,6%
Claro que se pode fazer um carnaval em torno disso. A Constituição garante a liberdade de expressão, não é mesmo? Mas é uma diferença irrisória, como explicou, num artigo antológico, o economista João Sayad, na época em que era ministro do planejamento do governo Sarney.
Essa aposta do COPOM pode dar errado? Pode. A economia não é uma ciência exata, por mais que utilize cálculos matemáticos e projeções estatísticas, que ajudam alguns economistas a assumir ares de feiticeiros do dinheiro. O problema é que, nas circunstancias atuais, a alternativa não oferece muita segurança.
De um ano para cá, a idéia de elevar os juros para enfrentar a crise foi empregada com insistência na Europa da Grécia, da Espanha, da Itália, da Irlanda… Agora, até a próspera Alemanha de Ângela Merkel encontra-se ameaçada.
Nos EUA do Tea Party e Barack Obama toda iniciativa para lançar nova estimulação ao crescimento foi bloqueada por um ambiente de paralisia, confronto e desmoralização política.
O desastre do mundo desenvolvido está aí, aos olhos de todos.  Não é este o caminho que interessa ao Brasil.
Essa é a discussão. Os fanáticos do mercado querem recuperar, no COPOM, aquilo que perderam nas urnas.
Fonte: Coluna: Vamos Combinar, Época online.

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