Paulo Chaves: preconceito ou "ódio de classe"?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011.

Recentemente o secretário de cultura já havia se referido ao governo anterior, e também aos eleitores do PT, de modo geral, como "muvuca cultural" e como "populismo devasso". O lado oposto, o seu, seria, a seu ver, o lado da cultura de "autor".
Há anos ele bate nessa tecla. Recordo que publicou um artigo, no mesmo O Liberal, logo no início do governo do PT, comparando a chegada ao governo dos petistas à entrada em Paris dos exércitos nazistas. Ou seja, há pelo menos quatro anos ele se ocupa com essas idéias, com essas comparações no mínimo arrogantes, mas, na verdade, preconceituosas. Boas gargalhadas foram dadas naquele momento, diante da sua figura de imagem absolutamente descabida e simplória - ao que nos consta, sua última "autoria" - mas a persistência desse discurso, em alguém que ocupa um cargo público e que tem a obrigação de cuidar da cultura de um estado híbrido e complexo como o Pará é preocupante.
Dividir a cultura em dois campos - o popular e o erudito - não é uma coisa razoável. A cultura é algo bem mais complexo que isso. As pessoas que fazem isso - e conheço muitas, mas nenhuma de maneira tão arrogante e desrespeitosa como Paulo Chaves - cometem o pecado da simplificação: positivizam, funcionalizam, a noção de cultura, conforme seus interesses, ignorando completamente a realidade do campo cultural em sua natureza sempre em disputa, sempre tensa, sempre complexa, sempre híbrida, intranquila e em constante mutação.
O que Paulo Chaves deseja, ainda que não deva ter uma precisa consciência disso, é retornar ao tempo em que a noção de cultura servia como uma moeda simbólica, como um poder simbólico, sendo usada para demarcar a linha de separação entre os grupos sociais. Cristalizada enquanto uma "escala de valores", a idéia de cultura servia para que pessoas mais privilegiadas economicamente preservarem essa sua diferenciação social, indicando, aos menos privilegiados, que possuíam essa matéria ignata, obscura e inespecífica que eles próprios chamavam "cultura".
A "cultura" à qual se referem longamente funcionou como um poder simbólico instrumentalizado como ferramenta para a exclusão social. E é isso que o secretário de cultura, do alto de seu preconceito, de seu "ódio de classe", pretende fazer: transmitir mensagens de poder: ofender, humilhar - e, assim, afastar - as pessoas que não pertencem ao seu mundo "privilegiado".
Um mundo de "classe". Não, necessariamente, um mundo "com classe" - como desejaria - mas um mundo que deseja perpetuar certas estratégias de diferenciação social, mesmo que usando da função pública para isso. O preconceito serve para impor limites subjetivos entre as pessoas. Serve para afastar os indesejados. Serve para transmitir mensagens de poder.
Arrisco uma interpretação sociológica que tenho desenvolvido longamente em outros escritos e em uma de minhas pesquisas: trata-se de um comportamento muito comum entre um nicho das elites paraenses - um nicho, sim, porque as elites nunca são coesas, como também não o são as "classes sociais", se se desejar utilizar essa noção bastante superada hoje em dia mas que, enquanto macrocategoria de análise, ainda tem muita utilidade - o nicho das elites "lemistas", ou seja, dos herdeiros das famílias que chegaram a Belém trazidas pelos velho intendente Antônio Lemos, como é o caso desses "Chaves", desses "Meiras", desses "Lins" e de muitos outros. Nas elites belemenses, esses neo-paraenses (como, sem admitir, parecem se enxergar) são pessoas, muitas vezes, impressionantemente arrogantes. Infinitamente mais arrogantes que outros nichos da elite local. Seria vital, para eles, a estratégia de, na falta de antiguidade, ou em função de uma origem nordestina que parece lhes incomodar, demarcar sua diferença social. Assim que meu trabalho tiver caminhado mais estará publicado e podemos retornar a esse assunto.
Por ora voltando ao ranço elitista do secretário de cultura, creio que posso resumir essa "ópera" com a mais óbvia das constatações: o secretário de cultura não entende NADA de cultura. Está no posto para defender uma determinada visão de cultura realmente antropológica e, portanto, profunda, plena de inerentes contradições mas o que faz é dispor da função pública para afirmar seu preconceito e suas estratégias de poder.
O que produz a seguinte questão, que necessariamente deveria ser indagada, pela sociedade, ao Governo Jatene: Paulo Chaves vai continuar se referindo aos "seres inferiores" que o ameaçam como vândalos e bárbaros, "índios" (Sic) e "caboclos" (Sic)? Não seria isso, do ponto de vista político, uma altíssima inconveniência para o Governador?
Talvez não, talvez alivie o Senhor Governador dos mesmos inconvenientes.
Não percebem, no entanto, que algo mudou na sociedade brasileira e muito especificamente na área cultural. O setor cultural foi um dos que mais evoluíram durante os oito anos do governo Lula. Ao que pese a má gestão atual do Ministério, o Governo Lula contribuiu imensamente para a entrada em cena de novos atores culturais e, de um modo geral, para a democratização dessa redoma de vidro que durante tanto tempo serviu para excluir e para diferenciar as pessoas. Ademais, não percebem uma outra mudança em curso na sociedade: uma mudança estrutural, que se refere a um processo de democratização da cultura pela via do acesso à classe média de 40 milhões de brasileiros, também obra do Governo Lula - e, ainda, o papel da cultura digital em ampliar a acessibilidade dos indivíduos aos bens simbólicos.
Paulo Chaves - e, portanto, o Governo Jatene - vão na direção contrária. A prova mais cabal desse seu atraso está, justamente, na tentativa de validar a noção de cultura enquanto uma "obra" de "autor".
          São percepções ultrapassadas: pela ciência e também pelo bom senso. Cultura não é "obra" e nem é o substrato de uma ação de "autoria" que se pretenda individual. Cultura é dinâmica social.

Cultura é mudança, queira o secretário Paulo Chaves ou não.

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