O fator Izabela e o abalo estrutural do Governo do Pará.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011.
Sempre que se mete a dar declarações à imprensa, Izabela Jatene coloca o pai, o governador Simão Jatene, numa saia justa.
Primeiro foram as declarações durante o escândalo da menina que teria sido estuprada na Penitenciária Heleno Fragoso.
Izabela pôs-se a falar na qualidade de coordenadora do Propaz, um programa mantido pelo Governo do Estado.
Logo, surgiram suspeitas de nepotismo, talvez, cruzado, já que Izabela não estaria sendo remunerada pelo Governo do Estado, mas, participaria do programa através da UFPa.
Agora, Izabela volta à berlinda com o abalo na estrutura do Wing, um luxuoso edifício às proximidades da Doca de Souza Franco, o metro quadrado mais caro de Belém.
As declarações de Izabela ao jornal O Liberal desta segunda-feira, induzem a crer que a filha de Jatene é  proprietária de um apartamento naquele edifício – um ap, até o abalo estrutural, com valor de mercado superior a R$ 1 milhão.
Aliás, na mesma reportagem, há o depoimento de um morador do Wing que conta ter adquirido seu imóvel por R$ 850 mil e tentava revendê-lo, até a semana passada, por R$ 1,3 milhão.
E mesmo com a maior boa vontade do mundo, é impossível não ficar a se perguntar o seguinte: como é possível que Izabela, uma menina nova, na faixa dos 30 e poucos anos, possua um apartamento com valor de mercado superior a R$ 1 milhão?
Ora, Izabela é funcionária pública, professora da UFPa. O marido ou ex-marido dela (também um garotão) é (ou foi) funcionário público, no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM).
Além disso, os pais dela, Simão Jatene e Heliana, também sempre foram funcionários públicos. 
Então, de onde veio o dinheiro para a compra de um apartamento avaliado em mais de R$ 1 milhão?
 E vejam que não se está a falar de outras propriedades que Izabela eventualmente possua, nem na decoração de seu ap – coisa que também não sai barato.
Só a decoração de uma cozinha de boa qualidade deve ficar em torno de R$ 10 mil.
E é difícil, muito difícil de acreditar que, a morar na Doca, num apartamento de R$ 1 milhão, Izabela cozinhasse num fogareiro a carvão...
Mas, a reportagem de O Liberal também traz outras informações inquietantes.
No prédio, que foi inaugurado há uns dois anos, também residiria “outro” filho de Jatene.
E esse “outro filho” só pode ser “Beto” Jatene, eis que o governador só teve dois filhos com a primeira esposa, Heliana -  e os filhos que perfilhou, a partir do casamento com a segunda esposa, Ana Maria, ainda são adolescentes.
Ora, Beto Jatene também é (ou foi) funcionário público, salvo engano, no Tribunal de Contas do Estado (TCE). 
Beto também é um garotão, assim como a esposa dele, Luciana Labad Jatene, igualmente servidora pública, no Tribunal de Justiça do Estado (TJE).
Quer dizer: a não ser que existam heranças ou fortunas familiares envolvidas nessa história, não dá para entender como um grupo de funcionários públicos conseguiu adquirir pelo menos um apartamento de mais de R$ 1 milhão na Doca de Souza Franco.
Isso porque, com os salários dos funcionários públicos estaduais, nem com uma vaquinha turbinada (um bingão regado a cervejão) seria possível tamanha façanha...
Não se sabe se o ap de Beto Jatene pertence a ele ou a Luciana, ou se o casal é apenas inquilino do Wing.
Mas as declarações de Izabela levam a crer que ela é, sim, a dona do ap onde mora. 
E um ap desse valor, ainda que financiado, levaria, certamente, a um dispêndio mensal impressionante, para nós, pobres mortais.
E a pergunta que fica é: será que esse “causo” não poderia ser enquadrado como “sinais exteriores de riqueza”, caso o funcionário público em questão não fosse a filha do governador do Pará? 
Com a palavra, o Ministério Público.

II

Há uma coisa que aprendi, nesta longa trajetória de jornalista: dinheiro deixa rastro.
Não tem jeito: o sujeito vai comprar um ap, um barco, uma fazenda – e tudo isso ficará registrado em algum lugar. Ou, pelo menos, haverá indícios do não-registro, ou de registro subestimado, de propriedade.
Nas eleições do ano passado, Jatene declarou à Justiça Eleitoral bens inferiores a R$ 1,2 milhão. 

A lista está aqui:

Edificio Francisco Barbosa
R$98.000,00
Terreno Edificado com casa
R$58.000,00
Banco Itau
R$15.364,00
Banco Do Brasil
R$63.389,00
Conta Corrente
R$35.040,00
Titulo Clube
R$24.000,00
Barco De Aluminio Com Motor
R$34.760,00
Terreno e construção de casa em São Caetano De Odivelas
R$110.000,00
Tres Salas Comerciais Conext
R$130.534,00
Banco Itau
R$59.152,00
Brasilprev
R$44.857,00
Veiculo Soretnto Kia
R$129.000,00
Banco Do Brasil Bb Lp Estilo
R$98.000,00
Banco Do Brasil Cc
R$40.894,00
Citroen C3
R$49.900,00
Fiat Strada
R$37.136,00
Em Caixa
R$10.000,00
Raphael Cunha (empréstimo)
R$23.338,00
Paracuri Comercio De Gas
R$68.984,00
Ed Xavante
R$45.000,00
Valor total dos bens declarados:
R$1.175.348,00

Nem vou falar do valor atribuído às salas no Edifício Connext, cuja foto está aqui:
Nem do valor de um ap no edifício Francisco Barbosa, na Marques de Herval, no bairro da Pedreira, que tem apartamentos oferecidos, na internet, por até R$ 250 mil.
Também não sei quanto Jatene declarou nas eleições de 2002 – nunca fui buscar isso e o PT, na campanha passada, estranhamente, não se interessou por tal comparação.
Mas, hoje, o importante aqui são duas constatações.
A primeira é que Jatene, por toda a vida um funcionário público, possuía, no ano passado, bens declarados no valor de quase R$ 1,2 milhão, apesar, supõe-se, da divisão de patrimônio anterior, aquando da separação da primeira esposa, Heliana.
É claro que, nos últimos 30 anos, ocupou vários cargos importantes – inclusive, como braço direito de Jader Barbalho no (hoje extinto) Ministério da Reforma Agrária... 
Mesmo assim, ainda que tivesse, nos últimos 30 anos, um salário mensal equivalente, hoje, a R$ 10 mil líquidos, isso equivaleria a ganhos em torno de R$ 4 milhões, nas últimas três décadas.  
E isso explicaria o patrimônio que declara e o que teria dividido com Heliana, além, é claro, do que deve ter gastado em 30 anos, mesmo que tivesse vivido como um monge budista, sem cair na tentação dos pães e patês da Maison Du Pain...
Mas não explicaria nem a origem do ap de Izabela, e nem de Beto Jatene – se é que o ap no edifício Wing pertence, de fato, a Beto. 
E o problema aqui é que todos eles – Jatene, Heliana, Izabela, Beto e os respectivos cônjuges – têm, sim, de explicar a origem desse dinheiro, já que todos eles são, ou foram, servidores públicos.
Trata-se, em suma, de demonstrar que serviram ao público, em vez de se servirem dele...
Em suma: se o Ministério Público quiser, já tem aqui elementos suficientes para começar a investigar os bens dos servidores públicos Simão Jatene, Heliana Jatene, Izabela Jatene, Beto Jatene e respectivos cônjuges. A levantar a cadeia dominial dos imóveis em que cada um deles reside, inclusive, do apartamento que Jatene ocupava até ser reeleito governador do Estado.
Mas a questão é a seguinte: o MP fará isso, ou continuará a entreter o distinto público, neste grande circo romano, apenas com os desmandos da Assembléia Legislativa?

III

Para ajudar o nosso brioso MP, deixo aqui a informação de que os arquivos deste blog, relativos e a 2006 e a 2007, possuem uma alentada coleção de reportagens acerca do impressionante aumento patrimonial de um cidadão chamado Eduardo Salles, que vem a ser sobrinho do governador Simão Jatene.   
Uma busca aos arquivos processuais da Justiça Federal no Pará também trará aos nossos promotores muito a investigar.
Isso sem falar, é claro, das transações relacionadas à venda da Celpa e às doações eleitorais, nas últimas campanhas ao Governo.
Mas voltemos ao fator Izabela.
Penso que a filha de Jatene, quer por gostar de holofotes, quer por querer ajudar o pai, ou quer por, genuinamente, se interessar por questões sociais, acabou por abrir um flanco que, se bem explorado, poderá abalar o Governo – e de forma imprevisível.
E, sejamos, honestos: nenhum de nós escolhe a família ou temos controle sobre os “pacotes” que a genética nos traz.
Mas Izabela é uma menina até inteligente, com potencial para buscar o próprio caminho, sem a sombra do paizão.
Se tem, de fato, interesse social, poderia, por exemplo, criar uma ONG, que, sem recursos do Governo, ajudasse a mobilizar a sociedade para a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes.
O que não pode é Izabela imaginar que, cada vez que o paizão ascende ao governo, ela, automaticamente, recebe uma espécie de “direito de autoridade”, mais compatível com os impérios.
Quem foi eleito foi Jatene – e não Heliana, Izabela, ou Beto.
Bem faria Izabela se tentasse se espelhar em Ana Maria, que, ao menos, e apesar da parentada, tenta ser minimamente discreta. 

Fonte: http://pererecadavizinha.blogspot.com/

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