Quando os bons princípios do Ocidente não se aplicam ao Oriente

segunda-feira, 31 de outubro de 2011.
Enio Squeff*

Talvez não seja apenas uma curiosidade que as relações entre o poder e os artistas só se fizeram manifestadamente livres, no âmbito da cidadania, após as revoluções francesas e americanas. Leonardo da Vinci nunca se arriscou a contestar qualquer ato de um de seus patrões - o Duque César Bórgia, filho do Papa e um dos maiores facínoras da Renascença. Concluir que muito dificilmente manteria seu pescoço, se o fizesse, responde diretamente à questão. Miguel Ângelo sempre tratou de se manter às boas com o Papa Júlio II, mas Beethoven chegou a xingar alguns nobres. Explica-se em parte: o pintor da Sistina era respeitadíssimo e se sabe de alguns de seus enfrentamentos com o Papa - mas recuou a bom tempo. De um pontífice que não hesitava em trocar a batina branca, de Pai da Cristandade, pela armadura pesada de comandante-em-chefe do Vaticano, a tolerância limitava-se a alguns desaforos a mais: por qualquer bobagem, era o bastante que prendesse e até matasse. Já Beethoven contava com mais que o beneplácito de seus patrões. Na Áustria, que lutou contra Napoleão, auto-intitulado defensor da Revolução Francesa, a idéia de cidadania não tinha, realmente, muita validade - mas era suficiente para que os nobres relevassem os péssimos humores de um gênio como Beethoven.
Villa-Lobos nunca expressou explicitamente qualquer crítica a Getúlio Vargas que, de resto, durante certo tempo, teve poderes ditatoriais. Perder, porém, seu emprego como diretor do Instituto que o premiava por sua arte, poderia acarretar-lhes dissabores que quase nunca entram nas contas de seus críticos. A pobreza ou mesmo a miséria, talvez não fossem as conseqüência mais deletérias ao compositor, já que não havia nenhum instituição particular brasileira,que pudesse encomendar partituras que o permitissem viver de direitos autorais. São situações que talvez espantem, mas que só assumem sua real dimensão num mundo como o nosso. Pelo menos, em teoria, qualquer artista nascido no Brasil, é, antes de tudo, um cidadão: pode ter a sua opinião. Independentemente do poder, exigem-se-lhe respeito público, direitos que lhe são peculiares e justiça - essas coisas.
No fundo, porém, tudo isso só tem a ver com estatuto de cidadão. Talvez, por isso também, só conheçamos as biografias, em detalhes, dos artistas cidadãos, ou seja, a partir da sua condição de indivíduos que nasceram em sociedades que chegaram à revolução liberal, antes que outros tantos, algures. Quase ninguém sabe muito do padre José Maurício Nunes Garcia(1767-1830) - que foi um dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos. José Maurício viveu a maior parte da sua vida no Brasil Colônia. E serviu como mestre-capela, tanto de Dom João VI, quanto de Dom Pedro I.
Ainda que respeitado como sacerdote que era, não tinha "status" de cidadão acima de qualquer suspeita. O fato eximia-o, inclusive, de certas obrigações que se acoplam aos direitos como condição da cidadania. Como seu colega português, Marcos Portugal, que serviu aos invasores franceses que ocuparam a Península Ibérica durante as guerras napoleônicas, suas obrigações cingiam-se aos empregos e empregadores eventuais. Exemplo da desimportância dos dois músicos se dá exatamente na história portuguesa do princípio do século XIX. Ninguém cobrou a Marcos Portugal ter servido aos inimigos de seu país que ocuparam a Península Ibérica na ausência do rei. O compositor luso era pouco mais que um empregado da Corte. Por sua condição, porém, ninguém o invectivou que fosse fiel a sua pátria, como se requereria de um fidalgo (que etimologicamente quer dizer "filho de algo", "de alguém"). Por terem origens modestas (José Maurício era inclusive filho de uma escrava com um português) aos artistas não se lhes pediam atitudes políticas ou uma arte de cunho político ou contestatório.
Mozart escreveu algumas obras que desafiavam o poder da época. Mas as óperas "Dom Giovanni", ou "As Bodas de Fígaro" embora criticassem a aristocracia, só adquiriram as suas dimensões, digamos, "revolucionárias", quando o artista tinha morrido há muito, a historia já era bem outra; e a aristocracia cedera lugar à burguesia no comando das sociedades: tudo nos anos seguintes à Revolução Francesa de 1789. Mozart mesmo, nunca reclamou, nos tribunais, ter levado um ponta-pé no traseiro quando se desligou da Corte de Salzburgo. Tinha feito o impensável para um empregado do Bispo que comandava Salzburgo: desligou-se de sua condição de servidor da Corte, a despeito da vontade do seu "senhor".
São fatos reveladores que antecederam a emergência do artista engajado. Este, porém, quando nasceu, durante a Revolução Francesa principalmente, teve não só de se haver com a sua condição de cidadão, mas, mais que tudo, com a sua prerrogativa de artista só que "a serviço da sociedade". Daí em diante, aliás, o processo seria levado a tal ponto, que muitos artistas não puderam fugir ao engajamento. Jacques-Louis David, pintor e, numa certa medida, ideólogo da Revolução Francesa, aceitou a tal ponto o processo, que logo exigiria de seus iguais a defesa direta ou indireta da Queda da Bastilha.
Qual a diferença disso e da propaganda?
Nas intenções, nenhuma. O próprio Jacques-Louis David, entretanto, nunca estreitou suas pinturas à Revolução Francesa ou a Napoleão Bonaparte. Embora fosse o pintor oficial de Napoleão, carregou nas tintas pelo que julgava o ideal da Revolução: a volta ao equilíbrio e ao respeito cidadão pelo mundo greco-romano, um equívoco se comparado à realidade tanto do movimento de 1789, quanto ao passado que ele idealizou. Mesmo assim, foi um dos primeiros artistas a pedir a punição de seus iguais que não louvassem à "verdade das novas leis" transformadas quase em dogma, pela Revolução Francesa. E fez história. Mesmo Beethoven preocupou-se com a Revolução e enquanto muitos se dedicavam diretamente a difundir as causas populares (tomadas como expressões históricas), outros muitos tratavam de defender que os artistas que não se engajassem nos projetos das superações históricas, jazeriam numa espécie de limbo existencial, também chamado de "Torre de Marfim". A expressão é antiga, mas quem a cunhou no século XIX, foi o crítico literário Charles Augustin-Sainte Beuve. Para ele, Alfred de Vigny seria um poeta típico da "Torre"; já o romancista e também poeta, Victor Hugo, seria o oposto: um intelectual plenamente "engagé ("engajado", "a serviço de", em francês).
Na verdade, daí em diante, as discussões não teriam fim e o mundo intelectual e artístico se dividiria até hoje. Sem que se soubesse ao certo até quando um escritor como Guimarães Rosa não seria um artista engajado - por não contar necessariamente sobre a miséria do "Grande Sertão/ Veredas" ao contrário de um Graciliano Ramos que com "Vidas Secas" se demoraria sobre a miséria do povo sertanejo - houve uma espécie de divisor de águas, não só no Brasil. Já que o artista é cidadão, como não cobrar dele, artista, que não se empenhe em mostrar as mazelas da sua condição e da sua gente?
"Primado da cidadania", talvez esse seja no mote. Mas que não se sabe o quanto vale até hoje para a totalidade dos homens - todos eles - já que as duas revoluções, tanto a Francesa quanto a Americana, consagraram o princípio de "que todos os homens são iguais perante a lei".
Aguardam-se, então, os artistas líbios - quem sabe - que contem sobre a luta democrática de seu povo - seja sob a forma de poesia, romance ou pintura. Esperam-se, aliás, que contem do início de uma época democrática, pós-Kadafi Mas se conjetura, igualmente, que um artista - mais apropriadamente - um escritor ocidental, principalmente, venha a digredir sobre o cadáver do próprio Muamar Kadafi. Ele morreu execrado por meio mundo - mas é mais um morto que se soma a outros tantos, devidamente justificados em seu assassínio por não pertencerem ao consenso ocidental.

Eduard Said, professor universitário norte-americano, um dos grandes pensadores falecidos recentemente, escreveu há anos um ensaio, onde defendia uma tese contrária a todo um pensamento que exalta a "Torre de Marfim", como a couraça mais conveniente a qualquer intelectual. Em seu alentado estudo intitulado, precisa e inconvenientemente (para os novos tempos) "Cultura e Imperialismo", ele resgata a visão unívoca de um Ocidente mal acostumado a não olhar para o diferente. E de exigir do Oriente que seja democrático nos termos ocidentais, inclusive, não só sob a ameaça, mas com o efetivo emprego de bombas, muitas bombas. Elas mataram inocentes, em bombardeios impiedosos sobre numerosas cidades líbias - talvez muito mais do que fez Kadafi em mais de quarenta anos de poder discricionário. Ou seja, o preço de um só cadáver pode ser muito mais cadáveres. Como sugestão de arte, em suma, aos artistas, cidadãos engajados, talvez valham as imagens em prosa e verso, com a sra. Hillary Clinton, desmanchada em seu belo sorriso louro, a exaltar mais um morto, este de Muamar Kadafi.

Descrever de alguma forma, como paradoxo, o sorriso como o equivalente a muitas loas aos matadores - todas devidamente confrontadas com os corpos ensangüentados dos inimigos eleitos recentemente que tais pelo mundo cristão e ocidental - será certamente uma contestação, mais uma. Mas não foi a isso que nos acostumaram os direitos de cidadania tanto da Revolução Francesa, quanto da Revolução norte-americana?
Eduard Said, em seu "Cultura e Imperialismo", resgata a visão unívoca de um Ocidente mal acostumado a não olhar para o diferente. As bombas do Ocidente mataram inocentes, em bombardeios impiedosos sobre numerosas cidades líbias - talvez muito mais do que fez Kadafi em mais de quarenta anos de poder discricionário.
Fonte: Da Carta Maior

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