A esmagadora vitória de Daniel Ortega e da FSLN

domingo, 13 de novembro de 2011.
Por Fidel Castro

No domingo, 6 de novembro, houve uma eleição geral na Nicarágua na qual Daniel Ortega e a FSLN obtiveram uma esmagadora vitória.

Por acaso, no dia seguinte se comemorou o 94º aniversário da gloriosa Revolução Socialista Soviética. Páginas inapagáveis da história foram escritas por trabalhadores, campesinos e soldados russos. O nome de Lênin brilhará sempre entre os homens e mulheres que sonham com um destino justo para a humanidade.

Estes temas que são cada vez mais complexos, e nunca serão suficientes os esforços aplicados para educar as novas gerações. Dedico hoje um espaço para comentar este feito, em meio a tantos que ocorrem diariamente no planeta, que chegam noticiados por um número crescente de vias apenas imaginadas há algumas décadas.

Devo dizer que as eleições na Nicarágua foram ao estilo tradicional e burguês, que nada têm de justo ou equitativo – já que os setores oligárquicos, de caráter antinacional e pró-imperialista, dispõem como norma do monopólio dos recursos econômicos e publicitários, que, em geral, e de modo especial em nosso hemisfério, estão a serviço dos interesses políticos e militares do império – o que ressalta a magnitude da vitória sandinista.

É uma verdade que se conhece bem em nossa pátria desde que Martí desceu em Dois Rios em 19 de maio de 1895, para “impedir a tempo com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendessem pelas Antilhas e, com essa força a mais, desabassem sobre nossas terras da América”. Não nos cansaremos nunca de repeti-lo, especialmente depois de nosso povo ter sido capaz de suportar duramente meio século de bloqueio econômico e as mais brutais agressões desse império.

Sandinismo

Não é, no entanto, o ódio o que move nosso povo, são as ideias. Delas nasceu nossa solidariedade com o povo de Sandino, o General de homens livres, cujos feitos líamos com admiração, quando há mais de 60 anos éramos estudantes universitários e sem as maravilhosas perspectivas culturais dos que, há poucos dias, juntamente com estudantes de ensino médio, participaram no que já é uma bela tradição: o Festival Universitário do Livro e da Leitura.

A morte heroica do herói nicaraguense, que lutou contra os ocupantes ianques de seu território, foi sempre uma fonte de inspiração para os revolucionários cubanos. Nada tem de estranho nossa solidariedade com o povo nicaraguense, expressada desde os primeiros dias do triunfo revolucionário em Cuba, o 1º de janeiro de 1959.

O diário Granma nos lembrava na terça, dia 8, a morte heroica, em novembro de 1976, apenas dois anos e meio antes do triunfo, do fundador da FSLN, Carlos Fonseca Amador, “valente vencedor da morte”, como diz uma bela canção escrita em sua memória “namorado da Pátria vermelha e negra, Nicarágua inteira te grita presente”.

Conheço bem Daniel; nunca adotou posições extremistas e foi sempre invariavelmente fiel a princípios básicos. Responsabilizado com a presidência a partir de uma direção política colegiada, se caracterizou por sua conduta respeitosa frente aos pontos de vista dos companheiros de tendências surgidas dentro do Sandinismo em determinada etapa da luta antes do triunfo. Converteu-se assim em um fator de unidade entre os revolucionários e sustentou constantes contatos com o povo. A isso se deveu a grande ascendência que adquiriu entre os setores mais humildes de Nicarágua.

Revolução

A profundidade da Revolução Sandinista conquistou o ódio da oligarquia nicaraguense e do imperialismo ianque.

Os crimes mais atrozes foram levados a cabo contra seu país e seu povo, na guerra suja que Reagan e Bush promoveram a partir da presidência e da Agência Central de Inteligência.

Numerosos bandos contrarrevolucionários foram organizados, treinados e fornecidos por eles; o tráfico de drogas se converteu em um instrumento de financiamento da contrarrevolução e dezenas de milhares de armas introduzidas no país provocaram a morte ou mutilação de milhares de nicaraguenses.

Os sandinistas mantiveram as eleições em meio àquela desigual e injusta batalha.

A esta situação se somou o colapso do socialismo, a iminente desintegração da URSS e o início do Período Especial em nossa pátria. Em tão difíceis circunstâncias e apesar do apoio majoritário do povo nicaraguense, expressado em todas as pesquisas de opinião, foi impossível uma eleição vitoriosa.

O povo nicaraguense se viu obrigado a suportar novamente quase 17 anos de governos corrompidos e pró-imperialistas. Os índices de saúde, alfabetização e justiça social instaurados na Nicarágua começaram a cair dolorosamente. No entanto, os revolucionários sandinistas sob a direção de Daniel continuaram sua luta ao longo daqueles amargos anos, e de novo o povo recuperou o governo, ainda que em condições extremamente difíceis que exigiam o máximo de experiência e sabedoria política.

Cuba continuava sob o brutal bloqueio ianque, sofrendo também as duras consequências do Período Especial e a hostilidade de um dos piores assassinos que já governaram os Estados Unidos, George W. Bush, o filho do pai que havia promovido a guerra suja na Nicarágua, a liberdade do terrorista Posada Carriles para distribuir armas entre os contrarrevolucionários da Nicarágua e perdoou Orlando Bosch, o outro autor do crime de Barbados.

No entanto, uma nova etapa se iniciava em nossa América com a Revolução Bolivariana na Venezuela e a chegada ao poder, no Equador, Bolívia, Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai, de governos comprometidos com a independência e a integração dos povos latino-americanos.

Solidariedade de Cuba

Com satisfação posso afirmar, contudo, que a solidariedade de Cuba com a pátria de Sandino jamais cessou no campo da solidariedade política e social. Devo enfatizar com toda justiça que a Nicarágua foi um dos países que melhor utilizou a colaboração de Cuba na saúde e na educação.

Os milhares de médicos que prestaram seus serviços nesse heroico país irmão se sentem realmente estimulados pelo excelente uso e o emprego que os sandinistas têm dado a seus esforços. O mesmo se pode afirmar com relação aos milhares de professores que um dia, na primeira fase do processo, foram para as mais longínquas montanhas para ensinar os campesinos a ler e escrever. Hoje, as experiências educativas em geral, e de modo especial as práticas de ensino de medicina da Escola Latino-americana de Medicina, onde se formam milhares de excelentes médicos, foram transferidas para a Nicarágua. Tais realidades constituem um excelente estímulo para nosso povo.

Estes detalhes que menciono não constituem mais que um exemplo do fecundo esforço dos revolucionários sandinistas em prol do desenvolvimento de sua pátria.

Daniel Ortega

O fundamental do papel de Daniel e a razão, a meu ver, de sua esmagadora vitória, é que nunca se distanciou do contato com o povo e a incessante luta por seu bem-estar.

É hoje um líder verdadeiramente experimentado que foi capaz de manejar situações complexas e difíceis a partir dos anos em que seu país esteve de novo sob a égide do capitalismo predatório. Sabe manejar problemas complicados de forma inteligente, o que pode ou não pode, o que deve ou não deve fazer para garantir a paz e o avanço sustentável do desenvolvimento econômico e social do país. Sabe muito bem que deve a arrebatadora vitória ao seu povo heroico e valente, por sua ampla participação e quase dois terços dos votos a seu favor. Foi capaz de vincular-se estreitamente com os trabalhadores, campesinos, estudantes, jovens, mulheres, técnicos, profissionais, artistas e todos os setores e forças progressistas que sustentam e fazem o país avançar. É, ao meu ver, muito correto o chamado a todas as forças políticas democráticas dispostas a trabalhar pela independência e desenvolvimento econômico e social do país.
No mundo atual, os problemas são extremamente complexos e difíceis. Mas, enquanto o mundo existir, os países pequenos podem e devem exercer seus direitos à independência, à cooperação, ao desenvolvimento e à paz.

Tradução: da redação do  Vermelho, por Vanessa Silva.

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