A Filosofia e a Bandeira do Brasil (Ou: "O símbolo e a coisa simbolizada")

segunda-feira, 21 de novembro de 2011.

Patria minha (Vinícius de Moraes)

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

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Em 2002 a UNESCO instituiu o “Dia Mundial da Filosofia”. Foi decretado que na terceira quinta-feira do mês de novembro, de cada ano, a atividade filosófica seria homenageada. Neste ano (2009) o dia Mundial da Filosofia, dia 19, para nós brasileiros, coincidiu com o “Dia da Bandeira”. Até ai tudo bem, mas o que me chamou a atenção foi a maneira como alguns telejornais tupiniquins abordaram essa data comemorativa.

A TV Cultura exibiu uma reportagem sobre o “Dia da Filosofia”. O repórter perguntava às pessoas nos bares, praças, ruas, etc. o que era a filosofia. As respostas foram as mais lamentáveis possíveis. Quase a totalidade dos entrevistados se referiu à atividade filosófica com “máximas” e “jargões”. A filosofia foi apresentada como algo preconcebido, um produto pronto para ser consumido. É claro que a filosofia não é um “enlatado”, mas pode partir dele para ajudar o homem a compreender as coisas do cotidiano. Afinal, os “enlatados” também fazem parte da vida. Tudo porque a filosofia é um olhar incomum sobre as coisas comuns, por isso ela se afasta do “senso comum”. O filósofo é aquele sujeito que diante de um simples acontecimento, tenta compreendê-lo a partir da relação que ele possui com outros fatos que, aparentemente, são independentes, mas, se examinados acuradamente, se inter-relacionam. Ele é um artista que constrói a sua obra, olhando para o entorno dela.

Já no telejornal da Rede Globo, em ritmo “decrépito-ufanista” foi lembrado o “Dia da Bandeira”. Como ocorre todo ano, registraram lindas e inocentes crianças desenhando e pintando o símbolo nacional, numa imagem doce e angelical. Na rua, algumas pessoas diziam o óbvio e, em certos casos, se declaravam emocionadas, apesar de conseguirem, no máximo, balbuciar duas ou três palavras quando perguntadas sobre o significado da Bandeira do Brasil. De quebra, a reportagem mostrou alguns militares cultuando o símbolo em demonstração pública de respeito e adoração.

Apesar de reducionistas, se não fossem essas reportagens a Filosofia e a Bandeira do Brasil teriam passado despercebidas da maioria do povo brasileiro no dia instituído para as suas homenagens. Além da coincidência do dia comemorativo e do desprezo do povo brasileiro, o que a Filosofia e a Bandeira possuem em comum? Aparentemente nada. Para o senso comum são coisas totalmente dissociadas, sem relação alguma.

Mas, apesar da aparente dissonância que esses fenômenos possuem, estamos diante de uma excelente e rara oportunidade para demonstrar como a filosofia pode nos ajudar a compreender coisas corriqueiras. Tentarei, assim, demonstrar, com argumentação filosófica, a razão de a Bandeira, enquanto símbolo nacional, não suscitar, no imaginário do povo brasileiro, sentimentos patrióticos.

Iniciarei a nossa investigação das noções mais simples. A Bandeira do Brasil possui natureza simbólica, isto é, é algo posto no lugar de outra coisa, como uma metáfora. Ela representa um ser que está em outro lugar. A razão nos remete, pelo pensamento abstrato, à coisa simbolizada.

Esse símbolo (a Bandeira) representa a Pátria ou o sentimento patriótico de um povo. Mas a Pátria não é apenas um espaço físico ocupado por um determinado contingente humano e sob a tutela de um conjunto de leis. Esses são apenas os seus elementos objetivos. Do ponto de vista do sujeito, ela é constituída por elementos comuns que suscitam no indivíduo sentimentos de identidade com o COLETIVO. Esse imaginário é produzido pela ação de fatores comuns como a língua, valores, cultura, raça, religião, etc. Até o futebol e as telenovelas podem contribuir para a construção desse ideal. Mas, apesar de tudo, o sujeito pode ou não cultivar esse sentimento. Tudo depende da forma como ele se relaciona com a realidade.

Como a identidade com o coletivo não é coisa natural, é necessário que a educação a impinja no espírito humano. Mas, a sociedade brasileira, científica e capitalista, priorizou valores individualistas. A noção de felicidade ficou circunscrita ao ambiente privado. O prazer passou para o âmbito do pessoal. Tudo que é público não suscita interesse. No espaço gregário as coisas ruins acontecem: multas, impostos, violência e o caos da vida urbana. Somos educados para não nos interessar por tudo que seja coletivo. Vivemos para acumular bens que possam afastar a dor e assegurar a nossa satisfação ou dos entes queridos. Por isso não nos interessamos pela prosperidade da sociedade como um todo. Estudamos e trabalhamos para atender somente as nossas necessidades individuais.

Quando alguém tem os seus direitos vilipendiados na vida civil, não nos sentimos afetados. Somente nos mobilizamos quando somos diretamente atacados em nossos interesses. Empreendemos os nossos esforços para resolver problemas pontuais. Blindamos os nossos automóveis e nos “blindamos” em condomínios “fechados”, em shopping centers, etc. Até quando vamos à igreja, o fazemos objetivando a solução de problemas pessoais. O perdão, a cura ou a “vida eterna” são resultado de ações virtuosas e individuais. O “rebanho” não será salvo em conjunto.

A sociedade para qual trabalhamos está circunscrita aos “nossos”. A amizade não é pra qualquer um. Vivemos em altos edifícios, onde habitam centenas ou milhares de pessoas, mas, normalmente, não sabemos o nome do nosso vizinho do lado. Falamos com os nossos concidadãos burocraticamente. As “boas maneiras” expressam apenas a nossa adequação à vida em conjunto. Agimos como se as questões de interesse comum fossem responsabilidade de algum Deus (ou herói).

Essa aversão ao coletivo nos faz conceber a vida política como coisa para mal intencionados, mas não nos esforçamos em fiscalizar aqueles que tratam da coisa pública. Somente vamos à delegacia quando o ladrão nos tira algo pessoal. Os bens coletivos podem ser apropriados e expropriados por qualquer um, sem qualquer mobilização social. “O que pertence a todos não pertence a ninguém”. É como uma abstração. Nós apenas habitamos na Cidade, não nos sentimos responsáveis por ela. Estamos nela, mas não a queremos. Somos como estrangeiros em nosso próprio território.

Ora, como é possível, nesse contexto, o cultivo do Patriotismo se não temos interesse pelas coisas da cidade? Se tudo que é público nos causa infelicidade? Se a PÁTRIA, que é a expressão do coletivo em nós, não possui valor, como podemos nos importar com a sua principal representação simbólica? Nesse contexto, é compreensivo que qualquer homenagem ou culto à Bandeira não passe mera formalidade, posto que não exista símbolo sem coisa significada.

Eis a razão pela qual a bandeira do Brasil não possui valor simbólico para o povo brasileiro, que somente a lembra em raras ocasiões de manifestação burocrática de civismo, ou em pífias e ridículas reportagens que, por alguns minutos, a cada ano, nos lembram que 19 de novembro é o “Dia da Bandeira do Brasil”.

Assim, mesmo sem a pretensão de que este discurso seja verdadeiro, acredito ter demonstrado que a atividade filosófica pode nos ajudar a pensar a relação que estabelecemos com as coisas, mesmo as que desprezamos, como o nosso símbolo maior.

Salve a Filosofia e a Bandeira do Brasil!

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