“Me deram bicuda, soco, pontapé, tudo o que você imaginar. Eu comecei a chorar”, diz advogado que teria sido torturado na Seccional do Comércio. No processo são acusados três PMs e o delegado Roberto Teixeira de Almeida, que comanda o policiamento da Região Metropolitana de Belém.

sábado, 11 de fevereiro de 2012.
O advogado Franciney Goes Cardoso afirmou, ontem, à Perereca da Vizinha que foi, sim, torturado dentro da Seccional do Comércio, em 1997, pelo delegado Roberto Teixeira de Almeida e pelos policiais militares Marcelo Chuvas Simonetti (na época tenente, hoje major), Ricardo da Silva Vaz Teixeira e Ricardo Nascimento da Trindade.
“Ele (o delegado) me deu um soco na boca e eu me desequilibrei e caí da escada. Aí, quando eu estava caído lá embaixo, os PMs vieram pra cima de mim e me chutaram. Depois, eles me levaram pra uma pocilga imunda ( uma cela), para me torturar. Me deram bicuda, soco, pontapé, tudo o que você imaginar. Eu comecei a chorar”, contou.
Roberto Teixeira de Almeida e os três PMs são réus no processo  0004029-80.2010.814.0401, que tramita na 4 Vara Criminal de Belém e tem audiência de instrução e julgamento marcada para o próximo dia 15 de fevereiro. A acusação é de roubo e tortura. 

Além de Franciney, figuram como vítimas os irmãos dele, Dener Francisco Góes Cardoso e Sandra Lúcia Góes Cardoso, e o psicólogo e advogado Marcelo Rodrigues Bastos.
Apesar de o processo envolver acusação de tortura, Roberto Teixeira assumiu, anteontem, à Diretoria de Polícia Metropolitana (a portaria de nomeação dele para o cargo de diretor está publicada no Diário Oficial de hoje, 08). 

A Secretaria Estadual de Comunicação diz ignorar se o governador Simão Jatene tem conhecimento das acusações que pesam sobre o delegado. Roberto Teixeira nega as acusações  (Clique aqui para ler a reportagem anterior).

Outro acusado no processo, o major Marcelo Chuvas Simonetti, seria, hoje, o comandante do 21 Batalhão da Polícia Militar, em Marituba.
Hematomas de coturnos e laudo “guardado” no IML

Franciney garante que pediu a anexação ao processo do laudo do exame de corpo de delito, no qual teriam sido constatados hematomas causados por coturnos (botas usadas por militares), por todo o corpo dele: braços, peito, costas, pernas.
E que, ainda em 1997, denunciou o caso às corregedorias das polícias civil e militar e ao Procurador Geral de Justiça. Mas, segundo ele, até para obter esse laudo do Instituto Médico Legal foi um parto: passaram-se seis meses e o documento só lhe teria sido entregue após a interferência de dois deputados.

“Naquela época (1997), o diretor do IML era o doutor Malcher e ele era amigo do deputado estadual Haroldo Martins. E quando ele (Malcher) trouxe o laudo, ele disse que havia uma ordem da cúpula da polícia para que aquele laudo não fosse enviado à polícia. Isso, é claro, para que não chegasse à Justiça. Só consegui o documento porque procurei um deputado federal e pedi para que ele falasse com o Haroldo Martins”, relata.
No Ministério Público, a denúncia também caminhou a passos lentos: o promotor que denunciou os policiais à Justiça, Franklin Lobato Prado, disse  que o procedimento chegou às mãos dele apenas em 2010 – ou seja, 13 anos depois da denúncia de Franciney.

 “Eu recebi esse procedimento da Procuradoria Geral de Justiça em 2010 e fiz logo a denúncia. Se bem me lembro, levei apenas cinco dias para isso. Ao que parece, estava faltando um documento, mas eu telefonei ao advogado, ele juntou o documento e eu apresentei a denúncia”, contou o promotor.
Franklin Prado ressaltou que não pode falar sobre o que aconteceu antes de o procedimento chegar à mesa dele. Mas não descarta a possibilidade de que tenha sido “engavetado” na polícia.
Ontem, a Perereca não conseguiu obter esclarecimentos do procurador geral de Justiça, Antonio Barletta, para que se saiba, afinal, onde o procedimento ficou parado - na polícia ou no Ministério Público.

A Assessoria de Comunicação do MPE disse que não conseguiu falar com Barletta, que tinha um compromisso externo. Hoje, a informação foi a de que esse posicionamento oficial só sairá, possivelmente, na segunda-feira, devido à necessidade de levantar a tramitação processual.

“Só não matei esses bandidos depois porque tinha filhos pra criar”.

Franciney Goes Cardoso também negou que estivesse bêbado, naquela madrugada de 22 de novembro de 1997, quando teria sido torturado na Seccional do Comércio.
“Não tenho o hábito da bebida e duvido que alguém já tenha me visto bêbado”, afirma.

Por telefone, ele deu a sua versão dos fatos.
Segundo seu relato, ele estava com a família num camarote que havia comprado para o Carnabelém, na avenida Doca de Souza Franco, quando retirou do pulso um relógio de ouro que ganhara de presente de um grupo de garimpeiros para os quais advogava. O irmão, Dener, viu o relógio em cima da mesa, colocou no pulso e começou a brincar com ele. Franciney então lhe disse que levasse a jóia e a devolvesse só no dia seguinte. Mais tarde, o rapaz foi-se embora para casa, em companhia da irmã.
Pouco depois, porém, o advogado recebeu um telefonema dos irmãos dando conta de que haviam se metido numa confusão, num estacionamento, e que estavam presos na Seccional do Comércio. E mais: que o relógio de ouro, que havia sido retirado do pulso de Dener para a colocação das algemas, estaria na posse do então tenente Chuvas Simonetti. 
Franciney se dirigiu, então, à Seccional e foi falar com o delegado Roberto Teixeira. “Me identifiquei, mostrei-lhe a carteira de advogado, que ele (o delegado) meteu no bolso, o que não é correto. Disse a ele que os PMs estavam com o meu relógio. Aí, ele mandou que eu descesse e esperasse lá embaixo. Então, eu disse que ele me respeitasse e devolvesse a minha carteira. Aí, ele se virou e me deu um soco na boca”, relata.
O soco teria feito com que perdesse o equilíbrio e caísse da escada. Depois, teria sido espancado a chutes pelos policiais militares e levado para uma cela, onde teria sido torturado.

A violência só teria cessado ao amanhecer,  após a  chegada  de conselheiros da OAB e, especialmente, de repórteres dos jornais locais, acionados pela esposa dele.

“Por causa disso, passei um tempo desiludido, porque aquilo é um covil de bandidos que não têm respeito por ninguém. E só não matei esses bandidos depois, um por um, porque tinha filhos pra criar, tal o ódio que passei a nutrir por esses vagabundos”, recorda.
“Eu fui torturado. Tirem a foto, para que eles nunca mais façam isso a outra pessoa”
O advogado nega ter agredido Roberto Teixeira com um soco, e a delegada Nilma de Almeida com um chute, como afirma o delegado.
Argumenta que seria até contra as leis da Física que, ao dar um soco no delegado, acabasse caindo da escada: “Se eu desse um soco nele, o que é que me faria cair da escada? Quando se dá um soco em alguém, a tendência é que o corpo vá pra frente,  não para trás”.
E prossegue: “Mas vamos supor que, contrariando todas as leis da Física, eu tivesse dado um soco nele e caído da escada: o que é, qual seria o móvel, que me levaria a chutar, e ainda no chão, uma pessoa que eu nem conhecia, e ainda por cima uma mulher? Entra na sua mente isso?”

Segundo ele, a delegada nem estava metida na confusão: “Ela estava dormindo numa sala e, quando foi de manhã, o delegado Fernando Flávio (hoje presidente da Adepol), resolveu fazer o flagrante contra mim e mandou chamá-la, para ser vítima também”.

E comenta: “você imagina uma ficção dessas? Como é que um advogado criminal com dez anos de profissão, como eu tinha na época, não ia saber chegar numa delegacia? Como, mesmo a pessoa mais simples do mundo, vai acreditar numa coisa dessas?”
Ademais, observa, mesmo que estivesse bêbado e drogado, “nada disso justificaria o que passei. Se eu estivesse bêbado, ele (o delegado) deveria ter me prendido, me colocado numa cela especial e até chamado a imprensa, para mostrar o que a OAB estava permitindo que acontecesse – um advogado bêbado. Mas quem chamou a imprensa foi a minha esposa. Os repórteres, que eu conhecia, até me disseram: tire isso por menos, para o bem do senhor. Mas eu respondi: eu fui torturado. Tirem a foto, para que eles nunca mais façam isso a outra pessoa”.
Franciney afirma que a Corregedoria de Polícia Civil abafou o caso e que, se a demora na tramitação da denúncia que fez ao MP tiver ocorrido dentro do próprio MP, é porque, certamente, “houve tráfico de influência”.
Ele nunca recuperou seu relógio de ouro, que teria desaparecido nas mãos dos policiais.
Pelas provas que existiriam no processo, diz que “não tem como”o delegado e os três PMs não serem condenados. Mas, reflete, “nada disso retira as porradas que peguei e a tortura que sofri”.

“Eles não estão pagando esse crime pra mim, mas, para a sociedade. Isso o que eles fizeram comigo, tá sujeito  fazerem com o filho de todo mundo. E ele (o delegado) para mim não é um cidadão: é um criminoso que ainda não pagou esse crime para  a sociedade”, ressalta.
 “Aqui dentro termina os teus direitos”, teria dito o delegado Roberto Teixeira ao advogado.

“Não satisfeitos com a violência, ao colocarem o ofendido FRANCINEY dentro da cela, o Delegado acusado disse a citada vítima: “aqui dentro termina os teus direitos” (textuais). Aplicou outra surra no referido ofendido, espancando-o com chutes e socos por todo o corpo, juntamente com seus comandados e os PMs supracitados, causando-lhe intenso sofrimento físico e mental.
Após muitas agressões e humilhações, a vítima FRANCINEY alegou que tinha filhos para criar e pediu para que não o espancassem mais, razão pela qual finalmente pararam. O ofendido já estava quase desfalecido. Colocava muito sangue pela boca e sujou toda a sua camisa”.
Os trechos acima foram retirados da denúncia do promotor Franklin Prado contra o delegado e os três PMs. A cópia dela (na verdade, o modelo que o promotor conseguiu localizar em seu computador) você lê clicando aqui. 

Há pouco, Franklin Prado também confirmou à Perereca que no laudo do exame de corpo de delito de Franciney constam hematomas que teriam sido provocados por coturnos.
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Atualizada às 17:30:

O advogado Franciney Goes acaba de enviar ao blog cópia do laudo do exame de corpo de delito. Clique na imagem para ampliar:



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