Olhar e ver

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012.
Todos aqueles que dizem que as ideologias estão mortas estão emitindo, eles mesmos, um julgamento ideológico. Por mais que tentem escondê-las numa espécie de "tecnicismo", as decisões últimas, sobre para onde puxar um cobertor pequeno, sempre serão políticas.
Historicamente, desde a Revolução Francesa, a política foi dividida entre esquerda e direita de maneira a simplificar, para criar atalhos mentais. Claro que há outras dimensões e hoje a que particularmente me interessa é a divisão entre liberais e conservadores. Parece mais interessante porque põe um pouco de lado as discussões sobre economia (não que ela seja menos importante) e foca na questão da moral e dos costumes.
Durante muito tempo fomos tentados a acreditar que havia uma sobreposição de conceitos, ou mesmo uma certa identidade: os moralmente liberais eram aqueles que  se posicionariam na esquerda (como é em outros países). Nossa jovem democracia veio a mostrar que a crença era um grande erro.
Depois de cinco eleições presidenciais fica bastante claro que as duas dimensões são autônomas, que não há correlação necessária entre elas. O conservadorismo existe em todas as áreas políticas, e pior, está crescendo.
O crescimento do conservadorismo no Brasil está integralmente ligado ao  aparecimento de novas pautas e de novos atores que ficavam escondidos, relegados a mera existência privada.
Dentre estes atores estão os pobres que antes apenas trabalhavam e baixavam a cabeça e agora "ousam" reclamar, demandar; as mulheres, que mesmo conquistando o "direito ao trabalho", se recusaram a ficar no papel tradicional de dona de casa subserviente; os homossexuais, que "afrontam" a sociedade ao andar de mãos dadas em público, que "tripudiam da família tradicional" ao trocar carícias em locais fora dos seus guetos.
Diria Sir. Isaac Newton: toda ação corresponde a uma reação de igual intensidade e em sentido contrário.
O conservadorismo, ao perceber este movimento, recrudesceu, se articulou, e ameaçou nas instâncias político-partidárias. Gritou a plenos pulmões, por isso mesmo foi ouvido.
Se de um lado são pautas que não se encontram, são demandas fragmentadas,  vozes dissonantes em ritmos diferentes, do outro lado a reação é em uníssono.  Enquanto os "liberais" se assemelham àquele "huhh" grave, do quase-gol no estádio de futebol,  os conservadores cantam a capela como num coro de um show gospel. A força do agudo é impressionante e a força de uma agenda puramente negativa, reativa, é mais impressionante ainda.  Um "não" contra dezenas de "sims"
Agora, pelo menos, as inimizades são públicas, são visíveis. Só olhar. Acontece que não coincide com as outras divisões às quais estamos mais acostumados. Olhamos, mas não enxergamos. Este é o primeiro dos problemas.
Via: Portal Yahoo.

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