Meditações eleitorais

terça-feira, 30 de outubro de 2012.

Por Ana Célia Pinheiro




Nem o PT nem o PSDB pode se queixar do resultado destas eleições.

Nas contas do jornalista Fernando Rodrigues, tucanos e petistas (ou petistas e tucanos, como vocês preferirem) vão administrar 31 das 85 maiores prefeituras brasileiras (http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2012/10/28/pt-e-psdb-ficam-com-31-das-85-maiores-prefeituras/).

16 serão vermelhas; 15, amarelas.

O PT ganhou de lavada a joia da coroa: São Paulo, a maior cidade do País. E isso apesar do julgamento do mensalão em plena campanha eleitoral.

Mas nem no caso de São Paulo os tucanos podem se queixar. Pelo contrário: precisam é agradecer, efusivamente, aos manos petistas.

Afinal, a maior vitória do PSDB nestas eleições foi se livrar definitivamente de José Serra, o que abre uma autoestrada diante da candidatura de Aécio Neves à Presidência da República, em 2014.

Agora, só falta os tucanos se livrarem de Simão Jatene.

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Jatene é um dos piores governadores da História do Pará, sem sombra de dúvida.

Faz um Governo corrupto e corruptor como poucas vezes se viu – e olhem que, em se tratando do Pará, o páreo é duro.

Em dois anos de governo, não tem nem sequer uma obra importante pra chamar de sua. 

E o dinheiro para investimentos simplesmente desapareceu, consumido pelo custeio da máquina e por otras cositas más.

No ano passado, o Governo do Pará errou por uns poucos milhões a previsão de despesas do Orçamento Geral do Estado. 

Mas os investimentos (que integravam essa estimativa de despesas) ficaram em menos da metade do previsto. 

Aliás, no ano passado, os investimentos atingiram o pior nível dos últimos 15 anos (leia aqui:http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2012/08/incrivel-jatene-quer-contrair-quase-r-2.html).

E qual a saída encontrada por Jatene? Um megaempréstimo de quase R$ 2 bilhões.

Que, a julgar pelo que aconteceu no ano passado, pode é acabar consumido pelo custeio da máquina e por otras cositas más.

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Jatene é um excelente técnico, todo mundo sabe disso.

E até porque foi eleito em meio a grandes expectativas, com amplo apoio social, tinha tudo para fazer um bom governo. Então, qual o problema?

Em primeiro lugar, a inapetência dele pelo trabalho. 

Em segundo, a incapacidade de perceber que, em se tratando da máquina pública, o maior exemplo, o grande exemplo, vem de cima. E o exemplo tem uma força que nem a propaganda consegue superar.

Assim, quando Jatene não assume as rédeas do Governo, preferindo pescar e exercitar as cordas vocais, isso é interpretado, pelos seus colaboradores, como um sinal para o “liberou geral”.

Daí as impressionantes violações de direitos humanos em seu governo. Daí os escândalos de superfaturamentos e dispensas de licitação, apesar de manter as instituições amordaçadas e de torrar milhões e milhões em propaganda, neste estado miserável.

Quer dizer: a sujeira é tamanha que nem o silêncio das instituições e o dinheiro da propaganda já são capazes de ocultar.

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No entanto, apesar de um governo desastroso em termos de segurança, saúde e educação, Jatene e a milionária propaganda de Jatene, querem transformá-lo no “grande vencedor” das eleições do Pará, quando a verdade  é outra.

O governador perdeu feio em Marabá. E o grande cabo eleitoral do tucano Alexandre Von, em Santarém, foi Joaquim Lira Maia – um sujeito que é todo enrolado em processos, mas que tem uma qualidade inegável: é bom à beça de voto.

Em Ananindeua, quem ganhou foi Manoel Pioneiro, outro sujeito bom de voto, mas que sempre foi um “patinho feio” aos olhos dos tecnocratas que dominam o PSDB do Pará.

E em Belém, é possível que a vitória de Zenaldo fosse ainda mais expressiva, não fosse o peso de Simão Jatene.

Afinal, nas pesquisas, os eleitores que diziam não votar, de jeito nenhum, no candidato do governador representavam quase o dobro dos que diziam votar.

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Penso que Zenaldo tentará fazer, sim, uma boa administração na Prefeitura de Belém.

No entanto – e posso estar enganada – acredito que ele também vai penar que nem sovaco de aleijado, por conta da desídia do governador.

Afinal, é em Belém que explodem as grandes carências da população paraense, em setores essenciais, como a Segurança e a Saúde.

Ambos, Segurança e Saúde, dependem fundamentalmente do Governo do Estado.

No caso da Saúde, por exemplo, não há como resolver a situação dramática da rede pública da capital sem mexer na Atenção Básica de todos os municípios paraenses. Coordenando as ações, arranjando dinheiro e apoio técnico para as prefeituras.

E isso só quem pode fazer é Jatene – que não fez, e nem fará.

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Edmilson Rodrigues está pagando pelos muitos erros que cometeu ao longo de seus oito anos como prefeito de Belém. E não só.

Também está pagando por pertencer a um partido que faz política de forma religiosa, o que não tem condições de prosperar.

Essa incapacidade de separar política e religião ficou patente naquele racha em que um grupo de psolistas simplesmente recusou publicamente o apoio do PT e deu um voto “crítico” a Edmilson – ou seja, ao próprio candidato do PSOL, e em plena campanha eleitoral.

Tudo bem: política e religião têm vários pontos muito próximos – tanto assim que a propaganda política apela a sentimentos comuns a essas duas áreas.

Mas não dá para exacerbar essa proximidade, porque há o risco de resvalar no autoritarismo, na intolerância – e até no fascismo.

Política é a arte de conviver com outros seres humanos; de respeitar as ideias, ainda que divergentes, de outros seres humanos.

Conviver pressupõe concessões - e isso é fundamental numa sociedade democrática. Aliás, é fundamental até mesmo dentro de casa.

E conviver com o diferente, com o divergente, não significa, necessariamente, me “contaminar”.

Essa intolerância e autodeificação moral podem ser encontradas todos os dias em qualquer igreja, especialmente, nas pentecostais. 

Quando foi prefeito de Belém, Edmilson cometeu muitos e lamentáveis erros, por pertencer a uma tendência política com características semelhantes as do PSOL.

E se não fosse o fato de ter realmente realizado obras importantes em favor da população mais pobre; e se não fosse a alta rejeição de Simão Jatene, é bem possível que a derrota de Edmilson tivesse sido ainda pior.

É uma pena, porque Edmilson tem de fato toda uma vida a demonstrar um profundo compromisso com a população mais necessitada.

Mas sem rever o seu comportamento político, e convencer as pessoas de que reviu o seu comportamento político, Edmilson, infelizmente, não vai chegar a lado algum.

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Ao fim e ao cabo, Zenaldo conseguiu encarnar a expectativa, a esperança de mudança em relação a Duciomar, por aparentar maior flexibilidade do que Edmilson, tendo em vista o histórico do psolista.

A vitória de tucanos e petistas nas quatro ou cinco últimas eleições, e de outros partidos de centro-esquerda, como o PSB e o PMDB, parece indicar que a população brasileira pretende realizar a sua Revolução Francesa sem “guilhotinaços”, ou seja, pela via democrática.

E essa rigidez, essa incapacidade de conviver e de negociar dos psolistas passa a ideia de “infactibilidade”, de impossibilidade de sustentação no cotidiano do jogo democrático. Ou seja, na opção da maioria da sociedade brasileira.

É claro que para a vitória de Zenaldo também pesou a manipulação mental da propaganda, coisa que os partidos precisam discutir seriamente, como parte da reforma política.

E há, ainda, questões complicadas, como as denúncias que pululam na internet acerca de uso da máquina e até de compra de votos.

No entanto, não há lógica nessa crença de que a compra de votos poderia proporcionar uma diferença tão grande como a registrada entre Zenaldo e Edmilson, que ficou em torno de 13%, ou 100 mil votos.

Seria preciso que não houvesse fiscalização de ninguém - dos partidos, da polícia, do Ministério Público, da imprensa - ou seja, que toda a sociedade estivesse ontem a dormir em berço esplêndido, para que alguém conseguisse comprar 100 mil ou 50 mil votos, e ainda por cima na capital.

Já as denúncias de uso da máquina do Governo do Estado, essas, sim, parecem um pouco mais consistentes e têm de ser devidamente apuradas.

Porém, os indícios de que tomei conhecimento também não são suficientes para explicar essa diferença de 100 mil votos. Novamente, para que a máquina proporcionasse tal resultado, seria preciso que toda a sociedade estivesse a dormir.

Por isso, penso que a verdade verdadeira é que Zenaldo ganhou as eleições porque foi esse o desejo da população de Belém. E um desejo advindo do convencimento – mais do que qualquer outra coisa.

Eram dois excelentes candidatos. Mas foi Zenaldo quem conseguiu conquistar a confiança da população, quanto à possibilidade de resgatar Belém do caos em que se encontra.

Não creio que o Plebiscito tenha tido grande influência nisso.

Para mim, o fator primordial foram mesmo os erros de Edmilson em sua passagem pela Prefeitura e que até levaram, na época, a que fosse sucedido por um sujeito da marca de Duciomar.

Espera-se, portanto, que os resultados desta eleição levem Edmilson, o PSOL e até Zenaldo Coutinho a uma profunda reflexão.

Belém disse não a Edmilson por conta de erros cometidos há 12, 16 anos. Disse um retumbante não a Duciomar, por conta das patifarias, das ilegalidades dos últimos oito anos.

E tanto na época de Edmilson quanto na de Duciomar não existiam os instrumentos legais de transparência que existem agora. 

Além disso, o acesso à informação proporcionado pela internet só tende a se ampliar nos próximos anos, assim como o controle social sobre o Judiciário.

Tomara que Zenaldo tenha inteligência suficiente para compreender tudo isso. E que esteja de fato à altura das expectativas do povo de Belém.

FUUUUUIIIIIIII!!!!!!!!!!

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