TERCEIRO NASCIMENTO?

sexta-feira, 19 de outubro de 2012.

Por Rodrigo Bruno de Sousa*

Segundo o autor, Fernando Savater* que propôs em sua obra no primeiro capitulo “o aprendizado humano” oferece duas etapas em que todos nós seres gestaremos. O primeiro se dá no útero materno, segundo determinismos biológicos. O segundo acontece na matriz social em que se cria, submetida às determinações simbólicas. E por que não propor um terceiro nascimento?
É o termo que proponho segundo uma experiência de trabalho em “casa de passagem”, enquanto política de assistência social, ou melhor, do MDS (ministério do desenvolvimento social e combate a fome) do governo federal. E que segundo o estatuto da criança e do adolescente, ECA lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 que promove e defende os direitos das crianças e adolescentes em situação de maus tratos, abandono, negligencia situação de rua, entre outras situações. Nesta experiência que passei, vi, senti, observei, conversei, escutei, rezei, orei com crianças e adolescentes em situações degradantes que sem sombra de duvidas passaram pelas duas gestações. Mas que na primeira, na segunda gestação sofreram todos os tipos de carência que se possa imaginar. E neste ambiente de promoção e defesa de direitos depara-se com pessoas maltratadas, esquecidas, humilhadas, ou seja, seres com sua cidadania escassa que os próprios pais, responsáveis, a comunidade imprimem. Em alguns plantões noturnos que os acompanhei, vendo-os dormir cada qual em sua cama, cobertos, alimentados. Pensei, aqui não é o melhor lugar, mas também não é o pior. Bom mesmo se estes estivessem em suas casas no acompanhamento de seus genitores. E encaro como um desperdício enxergar estas crianças nestes espaços.
E gostaria de contribuir para a compreensão utilizar uma rede de musicas, que através destas abordam essa problemática social,

Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que?

A gente não quer só comer. A gente quer comer. E quer fazer amor.
A gente não quer só comer. A gente quer prazer. Pra aliviar a dor.

A gente não quer só comida. A gente quer comida. Diversão e arte.
A gente não quer só comida. A gente não quer saída. Para qualquer parte. Titãs – Comida

Comento o seguinte, nós que estamos tendo essa grandiosa oportunidade, em uma constituição familiar aparentemente sólida, sem ausência paterna ou materna, não quer dizer que a família nuclear seja a mais adequada. Imagine neste contexto atual essa possibilidade do 3º nascimento? E nós, refletimos sobre tal?

Recordo de outra: Mosca na sopa de Raul Seixas,

Eu sou a mosca. Que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca. Que pintou pra lhe abusar.
Eu sou a mosca. Que pertuba o seu sono. Eu sou a mosca. No seu quarto a zumbizar...
E não adianta. Vir me detetizar. Pois nem o DDT. Pode assim me exterminar. Por que você mata uma. E vem outra em meu lugar.

Uma demanda pouca assistida que é descaracterizada principalmente se residir em áreas periféricas. A mídia sensacionalista constantemente rotula os mesmos da pior maneira. Pois as crianças e adolescentes são nomeados como perturbadores, abusadores da “ordem”. E o trecho da musica que faz referencia ao “DDT”, analogamente refiro-me ao ECA que os próprios meios massivos de comunicação acima citado, distorcem, contorcem, proclamam, conclamam a modificação. Pois, acredito que essa interpretação do ECA é desrespeitosa. O ECA não é a blindagem de atos dos adolescentes...
Impossível não fazer referencia a mais esta, de Gabriel O pensador,

Eu me chamo de excluído como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser seu doto
Eu num tenho nome
Eu num tenho identidade
Eu num tenho nem certeza se eu sou gente de verdade
Eu num tenho nada...

Eu sou sujo eu sou feio eu sou anti-social
Eu num posso aparecer na foto do cartão postal
Por que pro rico e pro turista eu sou poluição
Sei que sou um brasileiro
Mas eu não sou cidadão

A minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar
E eu não tenho perspectivas de sair do lugar
A mesma sina é suportar viver abaixo do chão
E ser um resto solitário esquecido na multidão. 

Teríamos outros trechos desta letra, “O resto do mundo”, mas por hora basta, a letra é em parte apelativa, mas ao mesmo tempo descritiva desta realidade presente. Que próximo de nós se encontra. No desenvolvimento deste não me passa pela cabeça que os mesmos sejam coitados ou incapazes. Nós temos que exercitar esse olhar de dentro para fora, ler o texto, para compreender o contexto, escrever sobre o mesmo e pronunciar em publico tal compreensão. A uma confusão tão grande na compreensão da realidade que aponta que só pode ser encarado como cidadão aquele que consome. Observamos um contraponto em uma outra musica denominada Playboy deste mesmo acima, que neste trecho, seguindo o refrão diz,

O papai e a mamãe me dão do bom e do melhor,
E quando eles viajam eu fico com a vovó
Papai é meio ausente, eu sou meio carente
Mas se falar do meu pai cê vai ficar sem dente
Já sou bem grande, já sei me virar
Sei até dirigir, só não aprendi a conversar
Eu não discuto, eu chuto! Eu não debato, eu bato!

Sou playboy, filhinho de papai
Eu tenho um pitbull e imito o que ele faz
Sou playboy, filhinho de papai
Eu era um debiloide fiquei ainda mais...

Que situação! A repercussão de ambos as situações são distintas, mas o problema é praticamente o mesmo. Na musica “O resto do mundo” o tratamento que se dá a essa demanda é ao encarceramento, extermínio, julgamento sumario. Já a canção Playboy em seu decorrer o tratamento aplicado é elevado, distinto e ate mesmo não veiculado.
Pois bem! Não poderia encerrar esta gestação se não fosse com outras pérolas da musica brasileira como o trecho de Milho aos pombos de Zé Geraldo, “Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos...” ou a de Raul Seixas em Ouro de tolo, “Eu que não me sento no trono do apartamento, com a boca escancarada cheia de dente, esperando a morte chegar...”. Enfatizo que essa proposta de terceiro nascimento estende-se a todas as pessoas que tiveram o primeiro e o segundo nascimento semelhante aos citados.


Sobre o Autor:
Rodrigo Bruno de Sousa*Rodrigo Bruno de Sousa Nasceu em Altamira no Pará em 82, é bacharel em Ciências Sociais e também graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos, Instituições e Cultura Evangélica da Amazônia - MICEA

Comentários:

 
Blog do Tiago Sousa © Copyright 2010 | Design By Gothic Darkness |