A Farinha Nossa de Cada Dia

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013.

Por Tiago Sousa*

Aqui no Pará como no restante do Norte e do Nordeste a farinha de mandioca é um elemento fundamental na mesa do cidadão, faz parte do cardápio do Nortista, há quem não consiga fazer uma refeição sem ela. Vai bem com tudo, ou quase tudo, desde açaí com farinha, farinha no feijão com arroz a pratos mais exóticos como o Chibé que é nada mais nada menos que água, uma pitada de sal, farinha e um acompanhamento que pode ser um charque (carne seca) ou um pirarucu ou um camarão ou o que lhe agradar o paladar.  
Lembro que quando fazia a uns anos atrás inscrições para o Projovem-Urbano na escola Antonio Lemos matei a fome com um chibé, mas não era um chibé qualquer porque não havia água e usei uma coca-cola para fazer o chibé que com o charque assado forraram o meu bucho e do Luiz Mario que trabalha por lá. Esse episódio me mostrou o quanto nós podemos fazer sim das nossas particularidades culturais um elemento generalizador, mas a questão aqui não é bem essa... Vamos ao que interessa...
Bem, como demonstro acima a farinha é essencial, elemento da nossa subsistência até cultural, como diziam uns amigos revoltados em um congresso, a anos atrás, devido a falta de farinha no refeitório “do Pará a Bahia nós não vive sem farinha!” e este elemento está cada dia mais escasso da mesa do mais necessitado, até nós que não estamos tão ruins de condições financeiras sofremos com o aumento constante do preço dessa iguaria, e a grande questão a ser respondida é por quê? Por que tantos aumentos em tão pouco intervalo de tempo?
Não estava bem atrás dessas respostas quando fui a Colares, município do nordeste paraense, a alguns dias atrás, mas lá no caminho na estrado que vai para os municípios de Tauá e Vigia quando paramos para comer alguma coisa que falamos com uma produtora rural que nos contou uma história intrigante. Disse-nos a produtora que as áreas que pertenciam a pequenos produtores rurais estavam sendo comprados a preço de banana por fazendeiros que passaram a procurar terra para o plantio de Dendé para o tal Biodiesel e com isso os produtores daquela região estão abandonando o campo e migrando para a cidade, e o resultado disso não poderia ser outro que não uma catástrofe, ela nos narrou a história de uma comadre dela que abandou o terreno para vir para cidade, no primeiro ano dois dos cinco filhos morreram com envolvimento no tráfico de drogas, outro se meteu no vicio do álcool, assim que o dinheiro acabou o restante da família começou a passar dificuldades devido a não adaptação à realidade da cidade, e o modo de vida que tinham no campo passou de um sonho a pesadelo, pois onde se tinha de tirar o que comer quando plantava agora não tem mais.
Aí eu vejo dois problemas. O primeiro é quanto será que o abandono das produções locais, ou seja, até quanto o pequeno produtor que abastece a cidade com a farinha pode estar afetando no preço e na produção que tão logo se torne escassa tão logo se torna caro (lei da oferta e demanda). A outra questão é quanto a falta de uma política publica que incentive o permanecimento dos produtores no local está ajudando nesta migração, e outra lembro que o governo passado chegou a financiar casas de farinha e equipamentos para o produtor, mas mesmo assim aqui há outro problema não resolvido, quem irá defender o produtor da voracidade dos latifundiários?  
Parece que o que estamos assistindo é a pilhagem de terras por gente que aproveita dessa gente humilde para encher o coração com falas esperanças e com isso consegue comprar as suas terras de forma barata e ainda instalam o caos na vida dessas pessoas. Aí me fica a pergunta quem irá nos defender?
Lembro-me que alguns meses atrás eu comprava um quilo de farinha a R$1,00 e alguns centavos esse preço subiu para R$2,00 ou até R$2,50 dependendo do local e hoje já chega a R$6,00 ou R$7,00 reais o preço máximo. Lembro que a algum tempo se instalou na mentalidade popular que quem come ovo e farinha, a velha farofa, era pobre, mas levando em consideração o preço da farinha e do ovo, hoje precisa ser chique pra comer farofa. ♪ovo frito, farofa e torresmo na minha casa não é mais o que mais se consome
Se isso tudo não explica todos os motivos para os aumentos constantes de preço da farinha, ao menos é sim um dos elementos que levam a tal aumento. Um último detalhe, a produção de farinha é feita a gerações de modo artesanal de modo que se os pequenos produtores são impedidos de produzir a distribuição do produto para o consumo fica seriamente prejudicado.



Sobre o Autor:
Tiago Sousa*Tiago Sousa Natural de Santa Izabel do Pará, é graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA, Técnico em Turismo pelo CEFET-PA turma de 2005 e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos Socais, Educação e Cidadania na Amazônia - GMSECA. Tiago é o administrador deste Blog, escreve apenas sobre política no Blog Política em Debate e Também escreve versos no Blog Verso Reverso

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