IMPRESSÕES DO CÍRIO DE NAZARÉ

terça-feira, 29 de janeiro de 2013.

Por Rodrigo Bruno de Sousa*

Este texto nasce a partir de inúmeros eventos a respeito, causando interpretações que antecederam seu acontecimento e sendo discente do segundo ano do curso de Ciências da Religião, soma-se com isso ao favorecimento, ampliação e proporcionando analisar não o círio pelo círio, mais as suas múltiplas demonstrações de apresentação do sagrado. 
Acredito que a primeira pergunta seja para quem não participou desta manifestação religiosa e tem curiosidade, aguçada por relatos de quem já participou e até mesmo através da veiculação massiva dos meios de comunicação televisiva, que se articulam de maneira a contribuir na sua divulgação, como atração turística e ainda é considerado patrimônio imaterial da cultura brasileira, mais a pergunta é: Como pode uma imagem causar todo esse reboliço?  
A dimensão do círio de Nazaré se dá apartir dos eventos que o rodeiam, na sua imponente apresentação máxima que é a trasladação no inicio da tarde de sábado saindo do colégio Gentil na Avenida Nazaré em direção a Catedral da Sé no bairro cidade velha, percurso de aproximadamente 4 km, que dura por volta de 7h de caminhada e que no domingo às 5h da manhã celebra-se missa campal e refaz o trajeto do dia anterior com duração semelhante.
O círio semeia emoções nos fieis “católicos” praticantes ou não que a tem como promotora de graças como à cura de enfermidades e aos que conquistam um bem individual e/ou coletivo (material, imaterial) e os mesmos não se importam com quem não tem a mesma devoção se “achando” ser a religião verdadeira. E o círio também provoca frustração, pois a sociedade não é somente católica, temos uma diversidade de manifestações religiosas cristãs que não atribuem nada a Maria. Refiro-me a frustração no sentido de causar transtorno no transito com algumas romarias que percorrem parte da capital em dia de semana, além das emissoras de televisão que reservam parte de seus programas para falar do círio, e que no corredor central os outdoors são preenchidos por homenagens a virgem de Nazaré, etc.
Círio de Nazaré é o natal dos paraenses! Há um consenso com relação a essa afirmação, pois a um preparo de cardápio especifico, uma serie de convites para o almoço do círio, muitos encontros e reencontros com familiares que caminham, pedalam, viajam, voam, navegam até aqui, para esta grande confraternização. Momento mágico! E o natal de dezembro do nascimento de Jesus Cristo, seria somado ao de outubro duas maneiras grandiosas de transformação espiritual? Pois a atmosfera da capital modifica-se.
Os meios de comunicação televisivos que existem na capital e não tem vinculo com nenhuma manifestação religiosa dão cobertura de acordo com o “evento”, como o canal Cultura, SBT Pará, TV Liberal, TV RBA e TV Nazaré, proporcionaram a um publico que sem duvida se emociona, mas por alguma limitação assistem através desse recurso que mostram trechos da mesma, ou mesmo de pessoas que não gostam de estar em meio à multidão, é a religião se midiatizando ou o contrario?
Acredito também, que por mais que não seja fiel a essa devoção à pessoa se arrepia! Estando próxima. Por que é impressionante a multidão! Escutei de uma devota: “A nazinha, já fez a parte dela, botou seu filho no mundo agora somos nós que temos que correr atraz dela”. Isso, não é profundo? Para esta devota, isto é verdade absoluta. Dispensa comentários.
Para que saibamos o que realmente representa, significa essa festa à gente deve participar de alguns eventos e o círio fluvial é um desses, que ocorre no sábado pela manhã. É mais um momento oportuno para “tentar” enxergar sua dimensão. Todo ano é promovido um culto ecumênico entre luteranos, anglicanos e católicos na comunidade Vila da Barca na capital antes da saída da Santa do porto de Icoaraci para em seguida assistirmos sua passagem pela comunidade que é grandiosamente homenageada por uma grande quantidade de pessoas e fogos, novamente é de arrepiar! O círio é uma mistura de imagens, cores, sabores e sons.

E gostaria de acrescentar a este dois acontecidos anteriores brevemente,

O protesto dos trabalhadores da construção civil que foram considerados “baderneiros” quando saíram em caminhada pelas ruas da capital. A mídia massifica, os empresários assinam e a população reproduz tamanha injustiça.  Eventos distintos, sem duvida, mas necessário. A festa da santa esta no calendário social da igreja, dos empresários, dos políticos e o protesto dos trabalhadores não. Cadê o reconhecimento financeiro aos trabalhadores? A santa não impede o direito de ir e vir? Ah! A santa é uma fonte e tanto, hein! E os trabalhadores são como empecilhos...

O pastor José de Arimateia foi assassinado na quinta-feira (dia 06) por volta das 19h na frente de sua casa em uma comunidade formada (ocupada) a beira da BR-316, denominada Canaã em Marituba, antiga “amafruta” na noite deste os moradores indignados com tamanha brutalidade dirigiram-se a BR-316 e atearam fogo em pneus e restos de madeiras obstruindo as duas vias de entrada e saída da capital, causando aquele transtorno. Mas a meu ver necessário. Durante toda sexta-feira ocorreu o velório do pastor e no sábado (dia 07) por volta das 10h da manhã saíram em cortejo pela BR em direção ao cemitério localizado no município de Ananindeua. Por volta do km 5. Novamente causaram transtorno aqueles motoristas que não compreendem o protesto.  


Essas foram algumas impressões desta grandiosa manifestação do sagrado em terras brasileiras, ou seja, em Belém do Pará na sua 219ª edição. O círio mexe com o Psicológico (emoção – frustração), com o Social (migração de peregrinos, turistas, fieis turistas que se manifestam neste momento, ricos e pobres na multidão), com o Econômico (movimentação de vendas de artigos religiosos, alimentação, bebidas, rede hoteleira, aviação, marítima), com a Infra-estrutura (a capital “para”, as fachadas de algumas empresas são enfeitadas, etc.), e com o Espiritual (resultando a participação direta e indireta no evento religioso, a sensação de “sair lavado”). O círio é um evento tremendo, e por que não político, pois é um momento oportuno para divulgar lutas, protestos, iniciar grupos, renovar-se, recriar-se, confraternizar-se, reencontrar-se, manter contato com o sagrado, etc.

Sobre o Autor:
Rodrigo Bruno de Sousa*Rodrigo Bruno de Sousa Nasceu em Altamira no Pará em 82, é bacharel em Ciências Sociais e também graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos, Instituições e Cultura Evangélica da Amazônia - MICEA

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