LITERATURA LIGHT

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013.
Por Rodrigo Bruno de Sousa*


Também no campo das leituras encontramos o chamado light. É a literatura kleenex, literatura rápida para leitores fáceis. Um bom exemplo disso são as revistas de fofocas ou, como prefiro chamá-las, histórias em quadrinhos para adultos. Ambos têm raízes similares, embora sua análise deva ser feita em separado.
         Sempre existiu uma diferença entre a literatura culta e a popular. A mesma coisa acontece com os livros de filosofia de todos os tipos, pois são mais densos, mais seletivos e minoritários. É evidente que não é a mesma coisa ler um grande livro de Freud – O mal-estar na civilização, Ensaios sobre a vida sexual ou teoria da neurose – do que ler O ser e o tempo, de Martin Heidegger. Os dois autores são importantes, mas o primeiro interessa a quase todo o mundo, enquanto o segundo fica restrito a leitores muito especiais e que conhecem essa linguagem técnica, de maior rigor cientifico.      Nestes casos, o uso do termo técnico afugenta muitos leitores. Por exemplo, com relação à psicologia e a psiquiatria de nossos dias, muitas pessoas a elas recorrem na tentativa de se conhecer melhor. Assim, os livros de bolso, que existem no mercado com certa qualidade, usam linguagem mais acessível ao leigo, fazendo com que se rompa essa barreira técnica, assim ampliando o numero de leitores.
         Os livros light são como os lenços de papel: são usados e jogados fora. As editoras que publicam esses livros logo esgotam suas tiragens, às vezes em menos de um ano. Seus estoques desaparecem como estrelas fugazes sem deixar menor vestígio.  É literatura de consumo rápido, sem quase nada denso que mereça nossa atenção, que serve no maximo para combater o tédio de uma tarde de férias. O mais freqüente nesses casos é alguém escrever um livro desse gênero querendo vender sua imagem: trata-se de fabricar um produto certamente artificial, passageiro desde sua concepção original. Podemos enquadrar nessa categoria também os best-sellers, pois seu significado psicológico deve ser entendido assim: é preciso ler o que lê a maioria das pessoas; dessa forma, as conversas giram em torno do que está nas ruas, na moda.
É uma forma moderna ou light de estar em dia, o que também se aplica as revistas de fofocas. Todo mundo fala das mesmas coisas, o mundo fica pequeno, os temas são mais próximos, as conversas são unidirecionais.

        Contudo, às vezes se dá o fenômeno Umberto Eco: todo mundo comprou O nome da rosa, muitos começaram a lê-lo e poucos chegaram ate o final. O livro é denso, muito ilustrado, erudito, com gosto enciclopédico, de difícil leitura, embora sem nenhuma dúvida, muito interresante. Era importante compra-lo, de falar dele, porque, afinal, não podemos ficar a margem das novidades. A mesma coisa aconteceu com o excelente livro A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, embora este fosse de leitura bem mais acessível.
       É interessante observar ainda que qualquer livro hoje é chamado ‘ensaio’. Este termo, ensaio, acabou se convertendo num recurso fácil para qualificar tudo que não é ficção: uma monografia universitária, um livro que ensina a ser feliz ou algum título divertido por um autor conhecido. O leitor procura a coisa leve, suave, porque não tem tempo e muito menos inquietudes. Faltam também o hábito da leitura, a concentração necessária, coisas que não são adquiridas espontaneamente.
       Outro aspecto dessa literatura light é o comercial. O importante, então, é que o livro venda. Os escândalos financeiros ou os livros de denúncia, mas com certo cunho social, podem fazer tanto sucesso como um livro de receitas culinárias escrito por um grande chef ou um manual para ser feliz sem esforço. A situação atual é grave, porque se descuida da educação intelectual: curiosidade pelos livros clássicos, os grandes autores, os temas eternos e imperecíveis. Estamos todos os dias, sujeitos a uma enorme gama de mensagens publicitárias, recomendando este ou aquele livro de grandes editoras todas com suas linhas light de publicação e cujo único objetivo é que o leitor passe o tempo com um livro nas mãos. É um livro feito para um homem sem cultura, sem critérios definidos e que vive de olho na televisão. Assim, um homem com essas características é presa fácil de qualquer espertalhão que saiba articular bem seu discurso de vendas.
Diante desse fenômeno literário de nosso tempo, acabamos ficando incapazes de assumir o legado cultural imponente que temos ao alcance de nossas mãos; não o aproveitamos por que não conseguimos nos impregnar de sua riqueza e sabedoria. Como psiquiatra, devo dizer que uma de minhas melhores experiências é ler um bom livro, ouvindo música clássica e levantando de vez em quando os olhos para saborear a importância de um bom escritor. Contudo – e voltando a nosso tema -, um sistema editorial ferozmente comercial acaba por alijar os grandes autores por falta de interesse, tempo e preparação dos meios de comunicação.
       Outro problema: nos programas educativos na televisão e no mundo da propaganda raramente se incluem a compra de livros e o interesse pela vida intelectual. A única coisa a que se insiste é de estar na moda: roupa musica do momento e autores fáceis, embora tudo isso seja trivial, ligeiro, inconsistente. Por isso não é de estranhar que não surja um modelo humano mais completo, pois seu destino é perecível, passageira, não dura nada. Vive hoje o mercado editorial uma grande crise por causa da queda nas vendas, mas, entre outros motivos, também devida a proliferação dos canais de televisão. Apesar disso, muitas editoras americanas acabam se salvando graças aos livros denominados não-ficção: é uma volta a textos de certa envergadura, terminada a onda de livros-lixo, kleenex ou do tipo light.
        Em países como a Inglaterra, Alemanha ou Holanda esses livros de bom nível continuam sendo publicados; em outros mercados com mais tradição cultural, como a França, os clássicos sempre tem seu público cativo, mas cada vez mais seletivo minoritário. Quanto à Espanha, sempre tenho comentado que a tendência mais marcante é a culturalizaçao. Apesar da reforma na televisão e sua programação mais ou menos uniforme, ainda predominam os concursos nos quais a pobreza cultural da o tom, e quando aparece um programa de certo nível, outros fatores acabam nos impedindo de assisti-lo. O Boom televisivo fez estragos, pegando muita gente indefesa justamente no momento em que poderia melhorar seu nível intelectual e cultural.
  Os livros com algum estofo, interessantes, são os mais afetados por essa crise, pois muitos não são mais editados por falta de compradores, reduzidos a jovens estudantes de história da literatura espanhola e universal que são obrigados a conhecer seus nomes e, talvez, escrever um comentário sobre alguma dessas obras...
Referência Bibliográfica: Enrique Rojas. O Homem moderno a luta contra o vazio; tradução Wladir Dupont, São Paulo: Mandarim, 1996.  P. 76 a 79.



Sobre o Autor:
Rodrigo Bruno de Sousa*Rodrigo Bruno de Sousa Nasceu em Altamira no Pará em 82, é bacharel em Ciências Sociais e também graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos, Instituições e Cultura Evangélica da Amazônia - MICEA

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