MEIOS DE COMUNICAÇÂO DE MASSA – RÁDIO E TELEVISÃO II

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013.
Por Rodrigo Bruno de Sousa*


Os primeiros estudos sociológicos, psicológicos e filosóficos sobre os meios de comunicação de massa foram feitos quando se deu a expansão das ondas de rádio. Mas do que o telefone, o telegrafo sem fio e o fonógrafo, o rádio despertou interesse por que com ele iniciou-se efetivamente a informação e a comunicação de massa à distância.
Dois fatos nos ajudam a perceber o impacto e a importância do rádio:
1º fato – O caso da transmissão radiofônica de “a guerra dos mundos”, nos meados dos anos 30, o cineasta Orson Welles e sua turma não avisaram o público de que se tratava de uma obra de ficção científica, mas a apresentaram como se de fato Nova York estivesse sendo invadida por alienígenas e o pânico tomou conta da cidade, pessoas fugiram de suas casas, procurando trens, ônibus, etc...
2º fato – Utilizado pelo nazismo com finalidade de propaganda política. Discursos de Hitler entrevistas com militantes do partido nazista, transmissão de notícias das frentes de guerra foram empregados para convencer a sociedade Alemã sobre a grandeza, justeza e poderio nazista. Em outras palavras o “poder de persuasão e de convencimento”, a capacidade mobilizadora do rádio.
No Brasil, os anos 1940, durante a ditadura de Getúlio Vargas, foi criado pelo governo um programa diário para transmitir as noticias oficiais e as idéias do ditador: “A voz do Brasil”.
A desinformação é o principal resultado da maioria dos noticiários de rádio e televisão:
* Falta de localização espacial – o espaço real é o aparelho de rádio e a tela da televisão,  que tem a peculiaridade de retirar as diferenças e distancias geográficas, de tal modo que algo acontecido na China, no Iraque ou em Campina Grande pareça próximo e distante.
* Falta de localização temporal – os acontecimentos são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros; surgem como pontos puramente atuais ou presentes, sem continuidade no tempo, sem origem e sem conseqüências.
Realidade Fragmentada
Acabamos de mencionar o modo como o noticiário nos apresenta um mundo irreal. Em contrapartida, as telenovelas criam o sentimento de realidade. Elas o fazem usando três procedimentos principais:

I – O tempo dos acontecimentos telenovelisticos é lento para dar a ilusão de que cada capitulo, passou-se apenas um dia de nossa vida,ou passaram-se algumas horas, tais como realmente passariam se fossemos nós a viver os acontecimentos narrados;
II – As personagens, seus hábitos, sua linguagem, suas casas, suas roupas, seus objetos são apresentados com o máximo de realismo possível, de modo a impedir que sintamos distantes deles (como nos sentimos no cinema e no teatro).
III – A telenovela aparece como relato do real, enquanto o noticiário como irreal.
Ex: a reação de cidades inteiras quando um personagem morre (as pessoas choram, ficam de luto). Em contraponto, uma falta de reação das pessoas diante de chacinas reais.
IV – A dispersão da atenção;
V – A infantilizaçao.
 
A programação se dirige ao que já sabemos e já gostamos como toma a cultura sob a forma de lazer e entretenimento, os meios satisfazem imediatamente nossos desejos porque não exigem de nós atenção, pensamento, reflexão, critica, perturbação de nossa sensibilidade e de nossa fantasia. Em suma, não nos pedem o que as obras de arte e de pensamentos nos pedem.
Opressão dissimulada
Um outro traço da indústria cultural que merece nossa atenção é seu autoritarismo, sob a aparência de democracia. Um dos melhores exemplos encontra-se nos programas de aconselhamento. Um especialista é sempre um especialista – nos ensina a viver (CASOS DE FAMÍLIA – MÁRCIA), um outro nos ensina a criar os filhos (SUPER NANY), um que me ensina a me vestir (ESQUADRÂO DA MODA) outros nos ensinam a fazer sexo, a criar o cão (Drº PET), e assim vão se sucedendo especialistas que nos ensinam a ter um corpo juvenil e saudável, boas maneiras, jardinagem, enfim, não há um único aspecto de nossa existência que deixe de ser ensinado por um especialista competente. Onde se encontra o lado autoritário desse tipo de programação (no rádio e na televisão) e de publicação (no caso de revistas, jornais e livros)? No fato de que funcionam como intimidação social.
De fato, como os meios de comunicação nos infantilizam,diminuem nossa atenção e capacidade de pensamento, intervem realidade e ficção e prometem, por intermédio da publicidade, colocar a felicidade imediamente ao alcance de nossas mãos, acabam nos transformando num publico dócil e passivo.  Uma vez que tornamos dóceis e passivos, os programas de aconselhamento, longe de divulgar informações (como parece ser a intenção generosa dos especialistas), tornam-se um processo de inculcaçao de valores, hábitos, comportamentos e idéias, pois não estamos preparados para pensar, avaliar e julgar o que vemos,ouvimos e lemos. Por isso ficamos intimidados, isto é, passamos a considerar que nada sabemos que somos incompetentes para viver e agir se não seguirmos a autoridade competente do especialista. 
Dessa maneira, um conjunto de programas e publicidade que poderiam ter verdadeiro significado cultural tornam-se o contrário da cultura e de sua democratização, pois se dirigem a um público transformado em massa inculta, infantil, desinformada e passiva.
 Jerry Mander (Que foi executivo e relações públicas em rede de televisão norte-americana por 15 anos), num livro intitulado Quatro Argumentos para eliminar a televisão, explica por que a televisão não pode ser considerada um meio de comunicação democrático. Seus dois principais argumentos são de caráter econômico e tecnológico.
Do ponto de vista ECONÔMICO:
As redes de televisão são ou propriedades privadas ou concessões estatais para empresas privadas, como tais operam com as idéias de lucro e de conservação de seu próprio poder. Sendo determinado o conteúdo da programação pelo critério do lucro (e não da qualidade) e da conservação do poder dos proprietários (excluindo, portanto, tudo quanto possa por em perigo esse poder e também o poder dos governos existentes, dos quais dependem as concessões).
Do ponto de vista TECNOLÓGICO:
* Ausência de Sutileza A televisão tem preferência por imagens cujos sinais ou pontos sejam nítidos e tais imagens são os rostos em close-up, ou seja, vistos de muito perto. Além disso, o que esta atrás e em volta da imagem não pode ser complexa (muitos objetos, muitas cores), mas precisa ser o mais simples possível. Assim nos programas geográficos ou turísticos, a câmera não consegue mostrar uma floresta (mostra uma mancha verde ou mostra algumas arvores) ou uma cidade (mostra uma mancha cinza ou mostra alguma rua com algumas casas); nos noticiários e programas de debates, por exemplo, nunca vemos o todo da cena, nunca vemos tudo o que está realmente acontecendo, mas apenas um corte, escolhido pela câmera. É por isso que a televisão tem preferência por programas de auditório, programas sobre violência, os chamados filmes de ação, e esportes, isto é, todas as situações em que os sentimentos, além de serem poucos, são previsíveis.
* Redução da percepção: A televisão só pode transmitir sinais visuais e sonoros. Além de poder oferecer apenas imagens para a vista e a audição, as imagens visuais e sonoras não estão conectadas: vemos imagens distantes com som próximo (por exemplo, montanhas ao longe com nítido som de pássaros e de cachoeiras, que não poderíamos escutar de verdade).
* Regras de transmissão: A televisão obedece a um conjunto de regras que determinam o que é melhor para a transmissão e o que deve ser evitado. Eis algumas:
I - A guerra televisiona melhor do que a paz por que contem muita ação e um sentimento poderoso: o medo (a paz é amorfa e sem graça; nela as emoções são interiores e sutis e não há como televisioná-las). Pelo mesmo motivo, violência televisiona melhor do que a não-violência;
II - Fatos externos (ocorrências e acontecimentos) televisionam melhor do que informações (idéias, opiniões, perspectivas), pois é mais forte mostrar coisas e fatos do que acompanhar raciocínios e pensamentos;
III - Afora rostos humanos, coisas televisionam melhor do que seres vivos (pessoas, animais e plantas) porque as coisas são simples, comunicam diretamente suas imagens numa mensagem sem complicação enquanto as pessoas são complexas, raciocinam, se emocionam, dizem coisas sutis;
IV - Líderes religiosos e políticos carismáticos televisionam melhor do que os não-carismáticos, pois estes se dirigem ao pensamento e ao sentimento das pessoas, mas aqueles se dirigem as emoções mais simples e visíveis, que são bem transmitidas;
V - É mais fácil transmitir um só do que muitos; por isso, nos acontecimentos de massa  ou de multidão,escolhe-se uma única pessoa para opinar e falar ou uma seqüência de pessoas entrevistadas uma a uma;
VI - É melhor transmitir organizações hierárquicas do que democráticas, pois as primeiras têm uma forma muito simples, qual seja a autoridade e os subordinados ou os seguidores;
VII - Assuntos curtos com começo, meio e fim são melhores do que assuntos longos que exigem pluralidade de informações e aprofundamento de ponto de vista;
VIII - Sentimentos de conflito televisionam melhor do que sentimentos de concórdia; por isso, competição televisiona melhor do que cooperação;
IX - Ambição e consumo televisionam melhor do que espiritualidade, pois a câmera não tem como lidar com sutileza, diversidade e ambigüidade;
X - Quando televisionar ‘povos primitivos’, apresente música, dança, canto, caça, pesca, lutas e evite entrevistas subjetivas nas quais se exprimem idéias, opiniões, sentimentos complexos;
XI - O bizarro e estranho televisiona muito bem;
XII - A expressão facial é melhor do que o sentimento: o choro televisiona melhor do que a tristeza, o riso televisiona melhor do que a alegria;
XIII - A morte televisiona melhor do que a vida: na morte tudo está claro e decidido, na vida, tudo é ambíguo, fluido, não completamente decidido, aberto a muitas possibilidades.
Referência Bibliográfica: CHAUÍ, Marilena.  Convite à Filosofia: 13ª ed. São Paulo: Ática, 2006.


Sobre o Autor:
Rodrigo Bruno de Sousa*Rodrigo Bruno de Sousa Nasceu em Altamira no Pará em 82, é bacharel em Ciências Sociais e também graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos, Instituições e Cultura Evangélica da Amazônia - MICEA

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