Mundial de Seleções 2010 - África

segunda-feira, 25 de março de 2013.
Por Rodrigo Bruno de Sousa, Belém, em 12 de junho de 2010



Enquanto passo por debaixo dos enfeites preparados para a copa, nas travessas do bairro em que resido (Che Guevara em Marituba). Tive a sensação de capacidade. Capacidade minha? Não. Capacidade, em que os moradores têm, de se juntarem se organizarem em colaboração com as vibrações positivas em direção a “seleção canarinha” que está do outro lado do oceano atlântico, na expectativa de uma boa apresentação. Percebe-se o empenho em fixar fio por fio, amarrar tira por tira. Acredito que nestes momentos acontece uma espécie de ‘reconciliação’ em quem sentia raiva um do outro. Como parte de um ritual.

Capacidade de não esperar pela limpeza publica no caso municipal. Pois capinaram, tocaram fogo como que, elevando as impurezas ao céu, ou melhor, elevando as preces para que a seleção tenha êxito e traga a taça para a nação. Pois, sabemos que limpeza é saúde. Temos autonomia ou somos dependentes? Fazemos-nos Reféns do poder público municipal e outras esferas? É importante, enfatizar que atravez dessa felicidade efêmera, passageira que utilizando do acessório que ‘sela’ a reconciliação dita acima cujo ingrediente indispensável é a bebida alcoólica. Brevemente observa-se que coisas acontecem. Mas o preocupante é que nos tornamos massa nas mãos das grandes “corporações” que ditam como deveremos nos comportar.
É compreensível, pois, como diz o antropólogo norte-americano Ralf Linton que, para a sobrevivência da sociedade,
A cultura deve não somente fornecer técnicas para treinar e reprimir o indivíduo, mas também dar-lhe compensações e válvulas de escape. Se o contraria e o reprime numa direção, deve facilitar-lhe os movimentos em outra”.

Um momento celebrativo como este, rompe com a hierarquia social, papeis sociais podem ser invertidos, mesclando ricos e pobres, homens e mulheres, transgredindo regras estabelecidas socialmente nos demais dias do ano. Usando de analogia, no que se refere ao círio de Belém que homenageia “nossa senhora de Nazaré”. Percebe-se a peregrinação “inversa”, pois a maioria retorna as casas; alguns aos bares e outros. E passam a venerar as imagens que são reproduzidas pelo aparelho televisivo. Em um lugar de destaque por que não chamar de “altar” onde possa acolher a todos.
O homem é um ser onto-societario, e por que não dizer onto-celebrativo. Pois como homem em sua sapiência cria válvulas de escape, driblando em parte os “fatos sociais” teoria tecida por Durkheim, que possui como características a coercitividade, a externalidade e generalidade. Pelo menos em parte mitiga-se esse ditado diário que foi tecido pela ‘razão instrumental’ que nos “faz pensar” na existência de apenas uma maneira de conduzir o dia-a-dia.   

No dia 15 de junho, primeiro jogo da seleção brasileira, minutos que antecedem a partida. Temos o hino nacional. Daqui de minha arquibancada escutam-se gritos dos populares acompanhado de fogos, vuvuzelas e ainda som alto (brega melody). É emocionante! Pois apesar de tantas dificuldades que nós, povo, passamos. Esse momento é mágico, inefável... Pelo menos por um momento esquece-se das dificuldades. Assim como mencionado o primeiro jogo, no dia 2 de julho mais uma partida que direcionava a seleção a semifinal. Mas diante da apresentação deixou a desejar. Despede-se do mundial.

Percebe-se de imediato em grosso modo uma comparação (sacerdotes/pastores) existir os mesmos os “sacerdotes da comunicação esportiva nacional”, que utilizam do tempo que antecede o jogo, uma cobertura que recorda o (grande dia,  o dia D, dia da decisão, dia do tudo ou nada, dia do paredão). O que leva a massa de torcedores a “consumir para existir” em função da partida e não em “pensar na sua existência” na sua autonomia que foi saqueada em detrimento da diversão e do entretenimento.

E ao apito final! Observou-se que alguns torcedores arrancaram os enfeites suspensos amarrados na rede telefônica que ficarão na rua sujando a via que é publica e a Pátria mais uma vez desprezada. A cada jogo se escutou o hino nacional e muitos colocaram a mão no peito orgulhosos da pátria do futebol, do futebol! Enquanto que para se reunirem para reivindicar direitos sociais, somos carentes! E me vem essa inquietação: Qual (is) o(s) motivo(s) dessa relação estreita, desinteressada pela pátria?   


Sobre o Autor:
Rodrigo Bruno de Sousa*Rodrigo Bruno de Sousa Nasceu em Altamira no Pará em 82, é bacharel em Ciências Sociais e também graduando do curso de Ciências da Religião – UEPA e participa do Grupo de Pesquisa dos Movimentos, Instituições e Cultura Evangélica da Amazônia - MICEA

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